Gestão de resíduos pode reduzir emissões em até 61,7% em cidades
Estudo internacional mostra impacto ambiental e sanitário da destinação adequada do lixo
Publicado em 07/jan/26 | 23:00
Cidades brasileiras com cerca de 100 mil habitantes têm um caminho claro para reduzir significativamente sua contribuição para o aquecimento global. De acordo com um estudo da consultoria internacional S2F Partners, especializada em gestão de resíduos e economia circular, municípios que implementam um sistema intermediário de manejo do lixo podem diminuir as emissões de gases de efeito estufa em impressionantes 33,5%. A pesquisa aponta ainda que, em cenários mais avançados, essa redução pode chegar a 61,7%.
O que caracteriza uma gestão intermediária, segundo a consultoria, é um conjunto de práticas que inclui coleta universal de resíduos, uma taxa de reciclagem em torno de 6% e, crucialmente, a destinação final em aterros sanitários que realizam a captação do gás metano produzido pela decomposição do lixo, seguida da queima controlada desse biogás. Esse processo evita que o metano, um gás com potencial de aquecimento global muito superior ao do dióxido de carbono, seja liberado diretamente na atmosfera.
"Lixões ou aterros municipais sem licenciamento ambiental, ou que não adotem tratamentos adequados para gases e chorume, representam um grave risco à saúde humana e ao meio ambiente, causando poluição do ar, contaminação do solo e da água, além de favorecer a proliferação de insetos", alerta Marçal Cavalcanti, presidente da Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente. Sua declaração reforça que o problema vai muito além das emissões climáticas, atingindo diretamente a qualidade de vida da população.
Carlos Silva Filho, sócio da S2F Partners e membro do conselho da Organização das Nações Unidas (ONU) para resíduos, explica a importância dos achados. "O estudo confirma que a gestão adequada de resíduos apresenta considerável potencial de redução de emissões de gases de efeito estufa e um modelo mais avançado contribui para uma efetiva descarbonização das cidades, além de trazer inúmeros benefícios adicionais, como proteção do meio ambiente, melhores condições de saúde, geração de emprego e valorização das propriedades nas cidades."
O cenário atual no Brasil, no entanto, está longe do ideal. Dados oficiais do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento revelam uma realidade preocupante: aproximadamente 1,6 mil lixões ainda estão em operação no país, somados a cerca de 300 aterros considerados controlados. No total, são quase 1,9 mil unidades de destinação final de resíduos que operam de forma inadequada, espalhadas pelo território nacional.
Esses locais, além dos graves problemas sanitários e ambientais que causam, são fontes significativas de emissões de metano. A transição para sistemas de gestão mais estruturados, portanto, não é apenas uma questão de política ambiental, mas uma necessidade urgente de saúde pública e desenvolvimento urbano sustentável. O estudo da S2F Partners oferece um roteiro técnico e números concretos que podem embasar políticas públicas municipais, mostrando que investir no lixo é, na verdade, investir no futuro das cidades e no bem-estar de seus habitantes.