Saída dos EUA de organismos climáticos é 'gol contra colossal', diz ONU
Retirada de 66 organizações internacionais, incluindo UNFCCC e Fundo Verde, pode prejudicar economia americana
Publicado em 08/jan/26 | 23:02
A decisão do governo dos Estados Unidos de se retirar de dezenas de organismos multilaterais, incluindo a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) e o Fundo Verde do Clima (GCF), terá impacto mundial, mas será ainda mais prejudicial aos próprios norte-americanos. Foi o que afirmou o secretário-executivo da UNFCCC, Simon Stiell, ao comentar a medida anunciada nesta quarta-feira (7).
"É um gol contra colossal que deixará os Estados Unidos menos seguros e menos prósperos", disse Stiell em nota oficial. O governo de Donald Trump também anunciou a saída do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão da ONU que reúne os mais renomados cientistas climáticos e publica relatórios sobre o aquecimento global.
Stiell destacou que os Estados Unidos foram fundamentais na criação tanto da UNFCCC quanto do Acordo de Paris, e que ambos são "inteiramente do interesse nacional". Ele alertou que, enquanto todas as outras nações avançam juntas, esse retrocesso em relação à liderança global, à cooperação climática e à ciência só pode prejudicar a economia, os empregos e o padrão de vida dos EUA.
"À medida que incêndios florestais, enchentes, mega tempestades e secas pioram rapidamente, essa decisão vai significar encarecimento nos preços de energia, alimentos, transporte e seguros para famílias e empresas do país", explicou o representante da ONU. Ele acrescentou que as energias renováveis continuam ficando mais baratas que os combustíveis fósseis, enquanto desastres impulsionados pelo clima atingem culturas, empresas e infraestrutura americanas cada vez mais duramente a cada ano.
A UNFCCC é a entidade da Organização das Nações Unidas (ONU) que realiza, todos os anos, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP). A última foi a COP30, em novembro do ano passado, em Belém, no Pará.
Para o Instituto Talanoa, organização não governamental brasileira que atua no debate sobre o clima, a decisão dos EUA representa um novo capítulo de choque político em meio à crise climática global. "É um recuo que enfraquece a credibilidade americana, mas não determina sozinho o rumo da governança climática global", avaliou a organização.
Segundo Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, o regime multilateral segue em funcionamento, mas o financiamento climático internacional deve sofrer queda imediata. "Se outros países seguirem Trump ou se os demais não assumirem a responsabilidade de liderar, este será um momento de baixa, com custos reais em coordenação, ambição e financiamento. Se novas lideranças se apresentarem, o sistema pode atravessar esse período sem colapso", observou.
Na justificativa para a saída do GCF, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, citou Trump e chamou o fundo de "organização radical". "Nossa nação não financiará mais organizações radicais como o GCF, cujos objetivos contrariam o fato de que energia acessível e confiável é fundamental para o crescimento econômico e a redução da pobreza", afirmou.
Bessent acrescentou que os Estados Unidos estão comprometidos com o avanço de todas as fontes de energia acessíveis e confiáveis, mas que o GCF foi criado para complementar os objetivos da UNFCCC e a continuidade da participação foi considerada incompatível com as prioridades e metas do governo Trump.
Ao todo, os Estados Unidos se retiraram de 66 organizações internacionais no anúncio feito nesta quarta-feira. A medida ocorre em um momento em que eventos climáticos extremos têm se intensificado em todo o mundo, incluindo nos próprios Estados Unidos, que enfrentaram temporadas recordes de incêndios florestais na Califórnia e furacões devastadores no Golfo do México nos últimos anos.