Venezuelanos no Brasil: entre acolhida e dor pela invasão
Histórias de migrantes que reconstruíram a vida no país, mas carregam o peso da crise e da intervenção
Publicado em 07/jan/26 | 11:03
A migração venezuelana para o Brasil, que ganhou força a partir de 2017, trouxe histórias diversas de reconstrução e superação. Por trás dos números e dos fluxos em Roraima, há vidas que se reestruturaram longe do país natal, mas que nunca deixaram de sentir na pele os reflexos da crise política e econômica que assola a Venezuela. A recente intervenção militar dos Estados Unidos no país, anunciada pelo então presidente Donald Trump, reacendeu feridas e trouxe à tona um misto de indignação, medo e uma dolorosa sensação de desamparo.
Benjamin Mast, produtor de audiovisual de 44 anos, é um desses casos. Ele chegou ao Brasil em 2016, antes da grande onda migratória, motivado por oportunidades profissionais que já vinham surgindo desde 2014. "Foi um processo bem tranquilo. Não tinha essa onda migratória. Era bem pequena, coisa de 100 pessoas que chegavam ao Brasil", contou em entrevista à Agência Brasil. Hoje, estabelecido em Roraima, tem uma produtora onde trabalha com a esposa e são pais de uma menina de 1 ano.
Para Mast, a invasão norte-americana é um golpe profundo. "É muito triste, para mim, sentir que meu país vai virar uma colônia. O Trump falou que vai manejar a Venezuela e não há nenhum estatuto legal internacional para isso", relatou. Ele reconhece as falhas do governo de Nicolás Maduro, mas atribui a crise a uma combinação de má gestão interna e sanções externas. "A indústria petrolífera - muitas coisas também causaram isso - foi a combinação da má questão política e econômica do país por parte de Maduro e do governo, com as sanções econômicas e políticas dos EUA".
A dor, para ele, se intensifica ao ver parte da população comemorando a intervenção. "Para mim, é difícil falar isso para todos os venezuelanos. Há uma questão dividida com essa crise que o Maduro causou", disse. Mast teme um futuro de instabilidade e violência. "Tenho muito medo desse vazio de poder e de virar uma colônia. A história nos conta que nunca vai bem um país dominado pelos norte-americanos", observou, prevendo que os únicos beneficiados serão "as oligarquias petrolíferas e econômicas estadunidenses".
Já Livia Esmeralda Vargas González vive uma trajetória acadêmica no Brasil. Professora na Universidade Federal de Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu, no Paraná, ela chegou em 2016 com uma bolsa de doutorado em história na Universidade Federal de Ouro Preto, em Minas Gerais. "A crise venezuelana foi levando uma estadia temporária para um doutorado virar uma travessia migratória", contou à Agência Brasil.
O peso de estudar a história da Venezuela enquanto sua família enfrentava a crise no país foi um desafio extra. "Ter que lidar com essa ferida, essa dor e acompanhar de longe a situação crítica em termos econômicos, sociais, políticos e afetivos tem sido um percurso que oscila entre a gratidão com o Brasil que me acolhe e a dor da família longe", revelou. Um alívio veio em 2023, quando seu filho Aquiles Léon, de 21 anos, conseguiu uma vaga no curso de engenharia da energia na Unila e passou a morar com ela.
Livia, que era professora associada de sociologia na principal universidade da Venezuela, descreve condições salariais "precárias" e a luta dos colegas para sobreviver. "As condições de vida e subsistência dos meus colegas são tristes, lamentáveis, deploráveis", observou. Para ela, a invasão é "estarrecedora" e representa uma "recolonização". "Me sinto profundamente triste. É uma dor que nem consigo nomear o nível", disse, preocupada com a família que ainda está no país. "Meu pai está lá, minha mãe, minha família, meus amigos estão vendo como garantir a comida de hoje. Não tem energia, não tem acesso às coisas básicas. Como vai ser neste ambiente de incertezas, em que não se sabe se vai ser bombardeado mais uma vez".
No Rio de Janeiro, Maria Elias reconstruiu a vida através da culinária. Técnica de informática na Venezuela, ela veio com o marido e dois filhos em 2015, quando a crise econômica tornou a sobrevivência inviável em Güigüe, estado de Carabobo. "Se a gente ficasse lá, sabia o que ia acontecer. Quando a gente saiu de lá, tinha 50% de chance de dar certo e 50% de dar errado. A gente decidiu pelos 50% de dar certo", lembrou.
As dificuldades com o português e a inserção no mercado de trabalho foram superadas ao explorar suas raízes libanesas. "Foi muito difícil começar e, por isso, diferenciamos nossa culinária como libanesa e conseguimos o primeiro pedido em uma lanchonete perto de onde morávamos", relatou. O sucesso fez com que, em 2016, começassem a ser contratados para jantares em residências e, posteriormente, ampliassem o cardápio para cozinha árabe e mediterrânea.
Sobre a situação na Venezuela, Maria vê a saída de Maduro como positiva, mas encara o futuro com cautela. "Tem muitas coisas para assimilar, não se sabe o que é verdade e o que é mentira", disse, citando a complexidade da divisão política. "Tem que manter, pelo menos por enquanto, o governo chavista para ver o que vai acontecer e depois fazer eleições livres. É preciso fazer uma limpeza. Tem que ter esperança de eleições limpas, mas não sabemos quando e se vai acontecer". Para ela, o essencial é que "a Venezuela renasça e volte a ser produtiva como sempre foi".
Essas três histórias, entre milhares, mostram que a migração venezuelana para o Brasil é marcada por recomeços bem-sucedidos, mas também por uma ligação umbilical com um país em crise. A invasão norte-americana, rejeitada por muitos, aprofunda traumas e incertezas, lembrando que, mesmo estabelecidos em nova pátria, o coração e a preocupação seguem divididos.