Estudo alerta para vulnerabilidade do litoral fluminense às mudanças climáticas

Pesquisa da UFF aponta que 60% da costa do Rio de Janeiro tem riscos médios e elevados de erosão e inundação

Publicado em 08/jan/26 | 15:01
Estudo alerta para vulnerabilidade do litoral fluminense às mudanças climáticas
Fonte: Agência Brasil / EBC

Uma pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF) revela que a maior parte da costa do estado do Rio de Janeiro está vulnerável aos impactos das mudanças climáticas. O estudo calcula que aproximadamente 60% do litoral fluminense apresenta vulnerabilidades médias e elevadas, indicando riscos significativos de inundações e erosão causada por ondas. A conclusão aponta para a necessidade urgente de medidas de proteção e adaptação.

A pesquisa foi desenvolvida pelo doutorando Igor Rodrigues Henud, do Programa de Pós-Graduação em Dinâmica dos Oceanos e da Terra, sob orientação do professor Abílio Soares. Segundo Henud, o objetivo do trabalho foi identificar regiões e populações vulneráveis, destacando ao mesmo tempo o papel protetor dos ecossistemas naturais. "O intuito foi mostrar que existem regiões e populações vulneráveis. Só que a vegetação e os habitats naturais, englobando dunas, restingas, manguezais, Mata Atlântica, ainda exercem uma influência positiva nessa proteção e, por isso, eles precisam ser preservados", afirmou o pesquisador à Agência Brasil.

Reconhecendo essa influência positiva, o estudo defende a implementação de soluções baseadas na natureza (NbS, na sigla em inglês) como a estratégia mais eficaz para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas. Essas soluções envolvem a restauração de ecossistemas, o manejo adaptativo do território e a proteção de habitats naturais. Além de reduzir riscos, as NbS oferecem benefícios adicionais, como a melhoria da qualidade da água, a mitigação de poluentes atmosféricos e o aumento da resiliência a desastres.

Henud acredita que essas soluções "são ecologicamente sensíveis, economicamente viáveis e sustentáveis no longo prazo", contrastando com as infraestruturas convencionais, muitas vezes chamadas de "soluções cinzas". Os pesquisadores defendem também a proteção dos chamados habitats costeiros, que são considerados ecossistemas estratégicos e que, mesmo estando fora do escopo de preservação oficial, podem ajudar a aumentar a resiliência climática.

A pesquisa considera impactos já observados no litoral fluminense, como ressacas mais frequentes, tempestades intensas e a elevação do nível do mar. De acordo com o estudo, as duas regiões que estão mais propensas a sofrer impactos das mudanças do clima são o Norte Fluminense e as Baixadas Litorâneas, também conhecidas como Região dos Lagos. Nessas áreas, características naturais como ventos, ondas e relevo se somam à fragmentação de habitats costeiros, como a remoção de restingas e manguezais, o que aumenta significativamente o alto risco.

Henud e o professor Abílio Soares chegaram a essa conclusão utilizando uma metodologia desenvolvida por uma universidade nos Estados Unidos, que reúne variáveis ambientais e socioeconômicas. Foram coletadas várias informações, como dados da Marinha sobre ventos e ondas, dados globais de profundidade dos oceanos, dados de plataforma continental e de vegetação, inseridas depois no software InVEST, que simula processos naturais. "Por exemplo, se a gente falar de restinga, de manguezal e de Mata Atlântica, se a gente tem essa vegetação próxima da praia, se uma onda bater nessas regiões, ela perde força. Então, geram uma proteção, sim", explicou o doutorando.

Com cerca de 1.160 quilômetros de extensão, a zona costeira fluminense abriga 33 municípios e concentra aproximadamente 83% da população do estado, configurando-se como um território ao mesmo tempo sensível e fundamental para o desenvolvimento socioeconômico. Essa faixa enfrenta pressão crescente da urbanização desordenada, do turismo de massa e da exploração econômica intensiva, fatores que aceleram a degradação ambiental e comprometem a capacidade de resposta aos eventos extremos.

Por isso, Henud reforça a importância do fator proteção: "quanto mais vegetação houver, maior vai ser a proteção que se vai ter na linha de costa". Ele esclarece que não se conseguirá alterar a força das ondas ou o relevo, mas é possível alterar o local onde aquelas populações que estão vulneráveis vão se localizar. A adoção de soluções baseadas na natureza é apontada como a maneira de minimizar o impacto das mudanças climáticas.

O pesquisador explica ainda que a mitigação das consequências das mudanças climáticas conta com diferentes ferramentas, classificadas em soluções "cinzas" e "verdes". As soluções cinzas envolvem intervenções como posicionar grandes pedras na região costeira ou construir muros de concreto, sacos de cimento ou recifes artificiais. "O cinza vem do concreto, da parte mais urbana", diz Henud. Já as soluções verdes priorizam o reflorestamento e a restauração ecológica, usando a natureza em benefício do ser humano e da própria natureza.

Os resultados do estudo indicam que a supressão contínua de habitats naturais intensifica os riscos ambientais e amplia a exposição do estado do Rio de Janeiro a desastres de maior magnitude no futuro. A pesquisa se soma a outras iniciativas recentes no país, como a criação do primeiro Centro de Clima e Saúde na Amazônia e a aprovação do Plano Clima, que orientará políticas até 2035, destacando a urgência de ações integradas para enfrentar os desafios climáticos.


Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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