Anexação da Groenlândia: EUA buscam controle do Ártico para frear China
Especialistas apontam que derretimento do gelo abre rota comercial estratégica e acirra disputa geopolítica
Publicado em 08/jan/26 | 15:03
Controlar todas as rotas marítimas para dificultar o comércio da China está por trás da intenção dos Estados Unidos de invadir e anexar a Groenlândia, segundo avaliam especialistas em relações internacionais e geopolítica consultados pela Agência Brasil. O Oceano Ártico liga Ásia, Europa e América do Norte e, com as mudanças climáticas, espera-se que o derretimento das calotas polares reduza drasticamente o custo e o tempo de frete nessa região nas próximas décadas, transformando-a em uma arena de disputa global.
O major-general português Agostinho Costa, especialista em assuntos de segurança e geopolítica e ex-vice-presidente da Associação EuroDefese-Portugal, explica que os EUA já controlam praticamente todas as rotas comerciais e oceanos, mas têm uma presença reduzida no Ártico. "[A anexação da Groenlândia] é uma política de controle de rotas marítimas com o objetivo de bloquear a China. Os EUA controlam o Pacífico e o Atlântico, agora falta controlar o Ártico. Eles vivem mal com a ideia de, em um oceano tão importante como é o Ártico, ter uma presença residual", afirma o militar.
Observações de satélite da Nasa apontam que o gelo marinho está diminuindo 13% por década. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), avalia que o Ártico pode ficar praticamente sem gelo entre 2050 e 2070. "Com o aquecimento global, a rota do Ártico diminui o tempo de navegação entre a China e a Europa", lembra o general Agostinho Costa, acrescentando que 80% do comércio global se faz pelos mares.
O cientista político Ali Ramos, autor de estudos sobre a Ásia, destaca que o derretimento das calotas polares na Rota do Norte deve baratear o frete marítimo entre os continentes em mais de um terço. "A Rússia tem mais que o dobro de bases da Otan no Ártico e a China recentemente emitiu um documento se considerando um país do entorno do Ártico, provavelmente em colaboração com os russos. O Trump precisa do Canadá e da Groenlândia para dissuasão, bases, mísseis e etc", comentou.
Em documento publicado em 2018, a China se classificou como um país “quase-ártico” e tem atuado em cooperação com a Rússia para aumentar sua presença no menor dos oceanos do planeta. Já em 2024, ainda durante o governo do americano Joe Biden, o Departamento de Defesa dos EUA expressou a importância do Oceano Ártico para frear os concorrentes de Washington no cenário global. O texto cita "a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, a adesão da Finlândia e da Suécia à Aliança da Otan, a crescente colaboração entre a República Popular da China (RPC) e a Rússia e os impactos acelerados das mudanças climáticas" como fatores que demandam uma nova abordagem estratégica para a região.
A Rússia detém 54% do litoral do Ártico, uma posição privilegiada que lhe dá condições favoráveis para definir as rotas marítimas. Lee Mottola, especialista em Conflito, Segurança e Desenvolvimento, avalia em artigo publicado no Instituto do Ártico que "se a Rota Marítima do Norte se tornar um elo vital no transporte marítimo global, o controle quase total da Rússia sobre a rota lhe daria uma alavanca econômica e diplomática para expandir sua influência regional". Mottola afirma ainda que a China deseja usar o Ártico para driblar o controle que os EUA impõem em pontos de estrangulamento geopolítico da navegação global, como os estreitos de Malaca e o de Gibraltar.
Com apenas 56 mil habitantes, a Groenlândia é um território semiautônomo do Reino da Dinamarca. Desde que assumiu seu segundo mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, tem ameaçado invadir e anexar a região, medida criticada até por aliados europeus. "Precisamos da Groenlândia para nossa segurança nacional. Se você olhar para Groenlândia, olhar para cima e para baixo da costa, tem navios russos e chineses por todas as partes", alertou o chefe da Casa Branca em recente declaração.
O major-general Agostinho Costa destaca que o governo Trump tem adotado medidas que remetem a séculos passados. "A primeira coisa que Trump fez quando assumiu o poder foi falar que queria o Canal do Panamá, que queria o Canadá como 51º estado dos EUA e que quer a Groenlândia. É uma estratégia que nos faz voltar ao século 15 ou 16, da pirataria, do controle dos mares", concluiu. A disputa pela Groenlândia, portanto, não se trata apenas de um território gelado, mas de um movimento crucial no tabuleiro geopolítico global, onde o controle das futuras rotas comerciais do Ártico pode definir os rumos do poder econômico e militar nas próximas décadas.