As esperanças de um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã se dissiparam nesta segunda-feira após uma maratona de 21 horas de negociações em Islamabad, capital do Paquistão. As delegações dos dois países deixaram a mesa de conversas sem chegar a um consenso, mantendo em suspenso a possibilidade de encerrar um conflito que tem tensionado o Oriente Médio e ameaçado a estabilidade global.

O vice-presidente norte-americano, JD Vance, foi o primeiro a anunciar o fracasso das tratativas. Ao deixar o local das negociações, ele afirmou à imprensa que os iranianos optaram "por não aceitar nossos termos". "Precisamos ver um compromisso afirmativo de que eles não vão criar uma arma nuclear e que não vão em busca de ferramentas que possibilitem o desenvolvimento rápido desta arma nuclear. Este é o objetivo central do presidente dos EUA e é isso o que tentamos conseguir nessas negociações", disse Vance antes de embarcar de volta para Washington.

Do lado iraniano, o tom foi de desconfiança histórica. O líder da delegação, Mohammad-Bagher Ghalibaf, chefe do Parlamento iraniano, enfatizou que haviam boa vontade para negociar, mas que, devido às experiências das duas agressões anteriores dos EUA e de Israel contra o país persa, "não confiávamos no lado oposto". Em publicação em rede social, a liderança iraniana comentou: "[Apresentamos] iniciativas promissoras, mas, no fim, o lado oposto não conseguiu conquistar a confiança da delegação iraniana nesta rodada de negociações".

Publicidade
Publicidade

O programa nuclear permanece como ponto central do impasse. O Irã tem defendido consistentemente o direito de manter seu programa nuclear para fins pacíficos, acusando os Estados Unidos de usarem isso como "pretexto" para impor uma "mudança de regime" no país. Teerã sempre negou a intenção de desenvolver uma bomba atômica, posição reafirmada durante as negociações.

Outro tema crucial que bloqueou o acordo foi o controle do Estreito de Ormuz, a principal via marítima do comércio de petróleo do planeta. Por essa passagem estratégica transitam cerca de 20% das cargas de óleo globais. O estreito foi fechado pelo Irã em resposta a uma agressão sofrida por forças dos EUA e de Israel no dia 28 de fevereiro.

Após o fracasso das negociações, o presidente norte-americano Donald Trump adotou um tom ameaçador. Ele afirmou que, como o Irã não estaria disposto a abrir mão de "suas ambições nucleares", a Marinha estadunidense vai impedir a passagem pelo Estreito de Ormuz. "Também instruí nossa Marinha a buscar e interceptar todas as embarcações em águas internacionais que tenham pago pedágio ao Irã. Ninguém que pagar um pedágio ilegal terá passagem segura em alto-mar. Também começaremos a destruir as minas que os iranianos colocaram no Estreito", declarou o chefe da Casa Branca.

O novo líder Supremo do Irã, o aiatolá Seyyed Mojtaba Khamenei, já havia sinalizado que a gestão do Estreito de Ormuz terá novas regras para passagem daqui para frente, indicando que o estreito não deve voltar ao status que tinha antes da guerra. Ghalibaf reforçou essa posição ao afirmar: "Não vamos cessar nossos esforços por nenhum momento para consolidar nossas conquistas nesses 40 dias de defesa nacional".

Segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei, além do programa nuclear e do Estreito de Ormuz, foram discutidos na reunião pontos como indenizações de guerra, levantamento de sanções e o fim completo da guerra contra o Irã e na região. "Era natural que tais questões não pudessem ser resolvidas em quase 24 horas de negociações", ponderou Baqaei à agência iraniana Irna. O porta-voz confirmou que persistiram divergências relacionadas ao Estreito de Ormuz e a questões regionais.

O fracasso das negociações ocorre em um contexto internacional delicado. Enquanto EUA e Irã tentavam encontrar um caminho para a paz, o Papa Francisco fez um apelo pelo fim da guerra. Paralelamente, a Hungria realiza eleições neste domingo que podem resultar na saída do primeiro-ministro Viktor Orbán do poder, em mais um capítulo da instabilidade geopolítica global.

As negociações haviam entrado recentemente em uma "fase técnica", segundo fontes próximas ao processo, mas a falta de confiança mútua e as posições intransigentes em temas sensíveis mostraram-se obstáculos intransponíveis nesta rodada. Com as partes retornando a suas capitais sem um acordo, a perspectiva de paz no conflito entre Estados Unidos e Irã permanece incerta, enquanto as tensões no Estreito de Ormuz continuam a representar uma ameaça concreta ao fluxo global de energia.