O cinema ibero-americano vive um momento histórico: pela primeira vez, a maioria dos indicados ao principal prêmio do gênero, o Prêmio Platino Xcaret, é composta por filmes dirigidos e protagonizados por mulheres. Na categoria de melhor filme, três das cinco produções concorrentes são comandadas por diretoras: Belén, da argentina Dolores Fonzi; Os Domingos, da espanhola Alauda Ruiz de Azúa; e Ainda é noite em Caracas, das venezuelanas Marité Ugás e Mariana Rondon. Completam a lista o brasileiro O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e o espanhol Sirât, de Oliver Laxe.

Para especialistas ouvidos pela Agência Brasil, o destaque feminino reflete avanços no setor, embora a desigualdade ainda persista nos bastidores. Ilda Santiago, diretora do Festival do Rio e produtora, pondera que o avanço ainda é circunstancial, já que a presença feminina é menor em áreas técnicas como montagem, fotografia e trilha sonora. “Quando olhamos para a categoria principal do Platino, temos três mulheres, todas com experiência em cinema, que não estão lançando a primeira obra e isso é muito bem-vindo”, destacou.

A professora de cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF) Marina Tedesco avalia que as obras assinadas por mulheres no Platino trazem perspectivas que têm encontrado mais adesão nas telas e nas premiações, mesmo que este espaço não esteja consolidado na indústria. Segundo ela, nos últimos anos, movimentos sociais, pautas feministas, antirracistas e sobre diversidade ganharam força e passaram a se refletir tanto nas salas de cinema quanto nos festivais. “Hoje há maior interesse por histórias que representam experiências que não foram vistas ou foram poucas vezes vistas nas telas”, disse Tedesco.

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Juliano Gomes, crítico e professor de cinema da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), defende que o fomento igualitário é essencial. “O cinema feito por mulheres floresce, em todo o mundo, quando há incentivos às pequenas e médias produtoras”, afirmou. Com isso, todos os grupos sociais se beneficiam, incluindo pessoas negras, indígenas e LGBTQIA+.

Entre os indicados, Belén exemplifica esse movimento. O roteiro é inspirado em um caso real de uma jovem presa após sofrer um aborto espontâneo, reacendendo debate sobre direitos das mulheres e desigualdades no sistema de Justiça. O longa recebeu 11 indicações aos prêmios Platino, incluindo melhor filme, melhor atriz e diretora. Já Os Domingos narra o despertar da vocação religiosa da adolescente Ainara e o conflito que isso gera na família da menina, no País Basco. Ainda é noite em Caracas é um suspense em que a protagonista é uma mulher venezuelana que se vê sozinha ao voltar do enterro da mãe, em meio a protestos na capital, em 2017, tomada por milícias.

Os outros dois filmes na disputa são O Agente Secreto, já premiado internacionalmente — incluindo três prêmios Platino de melhor música original, montagem e direção de arte —, e o suspense espanhol Sirât, que ganhou Cannes em 2025. Ao todo, 30 filmes e 19 séries compõem a lista de finalistas, com produções de 14 países ibero-americanos, incluindo sete brasileiras. O vencedor será conhecido em 9 de maio, durante cerimônia em Cancún, no México.