O lançamento do Ponto de Cultura Inês Etienne, no último domingo (30), movimentou Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, com um evento que reuniu pesquisadores, ativistas e familiares de desaparecidos políticos. O projeto tem como objetivo central a preservação da memória política e a defesa dos direitos humanos no Brasil, fortalecendo ações comunitárias que promovam reflexão, educação e resistência.
A inspiração vem da trajetória da ativista política Inês Etienne Romeu, única sobrevivente da chamada Casa da Morte, imóvel localizado em Petrópolis que foi usado pela ditadura militar (1964-1985) para torturar e assassinar opositores. Inês ficou detida ali entre maio e agosto de 1971, quando foi submetida a torturas por militares. Após conseguir liberdade, ela denunciou publicamente as atrocidades cometidas no local, tornando-se uma voz crucial para o esclarecimento dos crimes da ditadura. A ativista faleceu em 2015, mas seu legado segue vivo.
O evento de lançamento começou com um ato público em frente à Casa da Morte, onde os participantes do Ponto de Cultura reforçaram o pedido pela desapropriação do imóvel para transformá-lo em um espaço dedicado à memória. "Participaram familiares de desaparecidos na Casa da Morte. Alguns deles comprovadamente, outros ainda não. Mas há indícios de que isso [o desaparecimento] possa estar circunscrito lá, que foi um dos principais centros de assassinatos de militantes políticos", explica Vera Vital Brasil, membro do Ponto de Cultura Inês Etienne.
A luta pela desapropriação da casa é antiga. Um processo chegou a ser aberto, e a Prefeitura de Petrópolis recebeu, no início deste ano, autorização da 4ª Vara Cível para tomar posse do imóvel. No entanto, o caso ainda não foi concluído, e a propriedade segue em mãos privadas. "O movimento luta há anos para transformá-lo num centro de memória. Há um pró memorial Casa da Morte que está em funcionamento e existe a busca de recursos para a aquisição da casa, que é particular e está na mão de uma pessoa que a comprou do [Ricardo] Lodders, que foi quem a cedeu para o Exército", recorda Vera.
Inês Etienne é considerada o grande ícone do projeto, simbolizando resistência e sobrevivência em meio à barbárie. "Ela é esse símbolo de resistência, uma sobrevivente das situações mais bárbaras e cruéis. Inês é para nós um símbolo de luta e de resistência que abriu um caminho de reconhecimento do que havia nesses porões da ditadura", acrescenta Vera. O Ponto de Cultura que leva seu nome pretende honrar essa história através de atividades culturais e educativas.
O grupo já planeja novas ações para os próximos meses. Segundo Vera, "a intenção é promover a exibição de filmes, músicas e obras culturais que lembrem e permitam a informação sobre o que aconteceu durante a ditadura militar no Brasil". Essas iniciativas buscam não apenas preservar o passado, mas também fomentar debates atuais sobre direitos humanos e democracia.
O lançamento do Ponto de Cultura Inês Etienne ocorre em um contexto de discussões amplas sobre memória e justiça no Brasil. Notícias relacionadas, como o debate do MPF sobre a criação de um memorial contra a ditadura na Casa da Morte, a transferência de posse do imóvel para a Prefeitura de Petrópolis pela Justiça, e a recomendação do MPF para que a casa seja tombada de forma "célere", mostram que o tema segue relevante e urgente. O projeto em Petrópolis se soma a esses esforços, destacando a importância de espaços que mantenham viva a história para as futuras gerações.

