O Paraná está escrevendo um novo capítulo na história da mobilidade sustentável brasileira. Enquanto muitos estados ainda discutem planos, o governo estadual já colocou em prática uma estratégia integrada que transforma dejetos animais em combustível limpo e conecta regiões com uma das maiores eletrovias do país. O objetivo é claro: liderar a descarbonização do transporte, especialmente o de cargas, criando um novo mercado energético que beneficia produtores rurais, transportadores e o meio ambiente.
A iniciativa paranaense é inédita no Brasil por sua abrangência. Ela não se limita a uma única tecnologia, mas trabalha simultaneamente com biometano, eletrificação, etanol e biodiesel. Os chamados Corredores Rodoviários Sustentáveis representam a evolução desse conceito. "Quando surgiram as eletrovias, chamava-se corredor verde. Depois veio o gás natural, o corredor azul. Hoje chamamos de corredor sustentável porque não importa mais a fonte", explica Sandro Vieira, superintendente da Superintendência de Energia do Paraná (SUPEM).
O biometano é o carro-chefe dessa transição. Quimicamente idêntico ao gás natural, ele é produzido a partir da digestão de resíduos como dejetos suínos, frangos, bovinos e vinhaça de cana. A diferença crucial está na origem: enquanto o gás natural é fóssil, o biometano é renovável. "Interpretamos o gás natural como um combustível de transição e um indutor do biometano. Aonde o gás natural chega, o biometano também se conecta", afirma Thiago Olinda, coordenador de Gás Natural, Biocombustíveis e Hidrogênio da SUPEM.
A infraestrutura já está em expansão. Em 2024, a Compagas iniciou a operação da primeira rota entre Londrina e Paranaguá, conectando Norte e Litoral. Hoje são 13 postos preparados para caminhões em pontos estratégicos, possibilitando integração com São Paulo, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. "O gás já está disponível nas principais rotas rodoviárias que interligam as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste", destaca Eudis Furtado Filho, diretor-presidente da Compagas.
No campo, o ciclo virtuoso do biometano já é realidade. Na cooperativa Primato, em Toledo, 630 mil litros de dejetos suínos são transformados diariamente em biometano e fertilizante. Seis caminhões da frota já rodam com o combustível, reduzindo custos em 30% a 35% em relação ao diesel. "Percebemos que o nosso problema trazia uma oportunidade em um projeto de descarbonização", conta Juliano Millnitz, diretor-executivo da Primato. O impacto ambiental é significativo: o metano, gás até 21 vezes mais agressivo que o CO2, deixa de ser emitido na atmosfera.
O Estado fortalece essa produção através do programa RenovaPR, que oferece financiamentos para biodigestores, e com incentivos fiscais. A meta é ambiciosa: substituir cerca de 15% do diesel consumido no Paraná até 2035. "Temos que criar um mercado demandante de biometano. O grande mercado é a substituição do diesel, como já ocorre nos Estados Unidos e Europa", avalia Herlon Almeida, coordenador do RenovaPR no IDR-PR.
Paralelamente, o Paraná investe na eletromobilidade. A Copel gerencia 12 pontos de recarga ao longo da BR-277 e na BR-376, formando uma eletrovia de 730 quilômetros entre Paranaguá e Foz do Iguaçu. Em 2025, esses postos registraram 23.970 recargas, consumindo 429 MWh de energia. O crescimento do mercado de veículos elétricos no Brasil - 26% em 2025 segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) - encontra no estado uma infraestrutura preparada.
Para estimular a demanda, a Secretaria da Indústria e Comércio (Seic) firmou parceria com a Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Estado do Paraná (Fetranspar). O setor de transporte responde por 74% das emissões do setor energético no estado. "Nosso foco é fomentar o consumo e criar condições para que o transportador considere o biometano como alternativa viável", explica Rodrigo Becegato, assessor técnico da Seic.
O projeto está alinhado ao Programa Combustível do Futuro e à legislação federal sobre descarbonização. A expectativa é que o biometano possa reduzir em até 60% o custo do quilômetro rodado quando usado no modo puro. Além dos ganhos econômicos, a iniciativa amplia a competitividade da proteína animal paranaense no mercado internacional, cada vez mais exigente em critérios ambientais.
Com infraestrutura em expansão, incentivos à produção e parcerias estratégicas, o Paraná demonstra que a transição energética pode ser um vetor de desenvolvimento. "O Paraná tem uma nova cadeia produtiva altamente promissora. Ela gera emprego, movimenta a economia local, reduz emissões e diminui o custo do frete", conclui Herlon Almeida. Enquanto o Brasil busca caminhos para uma economia mais verde, o estado sulista já está pavimentando a estrada.

