Do Angu ao Algoritmo: O que realmente significa o "Pet Food" hoje?
Recentemente, compartilhei com vocês alguns informativos sobre a Fenagra, a grande feira de Pet Food que acontece em São Paulo. Mas, para o leitor que me acompanha, vale um esclarecimento fundamental: o que, afinal, é o setor de 'Pet Food' que essas feiras representam?
Lembro-me do meu pai, desde 1950, preparando o pet food da época. Ele cuidou de 400 animais de rua, nas ruas de terra do entorno do Aeroporto de Congonhas. Era o tempo do angu com músculo, da comida feita no fogão. A partir de 1977, com a chegada de grandes marcas, o mercado mudou e a ração passou a ser a alternativa absoluta. Mas a indústria por trás desse grão é muito mais complexa do que imaginamos. Existem feiras e feiras.
Se você busca o produto final, o acessório ou a saúde do animal, o cenário costuma ser a Pet South America. Já a Fenagra é a 'cozinha da fábrica'. É o lugar do 'Jerry Lewis' da indústria: lá não se vende o saco de ração, mas sim a máquina de extrusão de 2 toneladas, o conservante tecnológico e a farinha de carne que vem dos frigoríficos. É até chocante para o tutor, ver que a ração do seu querido totó é feita de restos industriais impróprios para consumo humano, mas é isso mesmo e, convenhamos, é um destino digno para milhares de toneladas de resíduos de proteína.
É um evento essencial para quem quer fabricar, não para quem quer comprar ou revender no balcão do Pet Shop. Fica o alerta para o amigo leitor: o mercado pet hoje é uma engrenagem gigante. De um lado, o brilho do pet shop (a tela do cinema); de outro, o barulho das máquinas e dos insumos (o estúdio). Entender onde cada um se encaixa é o que garante que a gente não se sinta perdido nesse mar de tecnologia que um dia começou com uma simples panela de angu.
E, em respeito a você, que está vindo de longe e programando sua visita a uma dessas feiras, leia antes de fazer as malas, pois os sites das feiras omitem seu público-alvo e podem induzir o leitor ao erro por falta de clareza. Observe o que diz o site oficial da PETSA (www.petsa.com.br) e veja se você é o visitante, o expositor ou um alienígena com Alzheimer:
"A PET South America reúne todas as soluções, produtos e serviços do mercado PET em um só lugar, durante 3 dias do ano. Participar do evento é estar em um ambiente de negócios altamente qualificado, onde é possível conhecer as tendências do mercado e se relacionar com profissionais de toda a América Latina."
É para lojistas, fabricantes, tutores, grandes consumidores (ONGs por exemplo)? Procurar pelas assessorias de imprensa é um teste de paciência e por isso as feiras acabam sendo um "sucesso de público", com milhares de influenciadores e de curiosos se acotovelando nos corredores e os organizadores divulgam esse inchaço como virtude. É o contrário! Se tivesse apenas trezentos empresários fechando grandes negócios, seria muito melhor do que esse público que coleciona folhetos e não fecha negócio nenhum.
Sempre escrevi sobre os benefícios da adoção de animais como fator de melhoria da qualidade de vida das pessoas, não tenho o costume de divulgar informações comerciais e me arrependo de ter publicado esses press-releases ipsis litteris com informações dúbias. Eu mesmo me senti enganado! Minha coluna não é balcão de negócios de organizador de eventos; é o espaço onde o seu tempo e o bem-estar do seu animal vêm primeiro. Se a feira não sabe para quem fala, eu sei com quem estou falando: com você.
Uma última sugestão: coloquem bem explicitamente a área de Imprensa, o credenciamento de Jornalistas e os contatos dos assessores de Imprensa ao invés de ter apenas opções para expositores, visitantes e influenciadores. Depois, não reclamem quando os eventos desaparecerem feito os shopping centers.
Nota do Autor: Não pretendo ser mais um jornalista do 'copia e cola'. Minha ambição com esta coluna é a longevidade, não o imediatismo. Espelhando-me na figura do Dr. Enéas Carneiro — que embora não tenha alcançado a presidência (campeão moral, fez mil embaixadinhas e nenhum gol), viu o tempo converter suas ideias em lucidez para as gerações seguintes — escrevo para ser lido daqui a décadas. Prefiro o julgamento da história ao conforto do consenso atual. Meu compromisso é com o que fica, não com o que apenas passa pelo feed.

