Eu observo daqui debaixo, entre uma farejada e outra no meio-fio, e confesso que não entendo essa fixação de vocês com portas e placas. Para nós, o mundo é um mapa de cheiros, não de conceitos. Eu sei quem é quem à distância de um quarteirão; o olfato não mente, não precisa de RG e muito menos de gritaria. A gente se reconhece, se respeita e, se a fêmea não está no cio, a vida segue seu curso sem drama. Não é a roupa ou a maquiagem que muda o sexo de um cachorro, gente!
O instinto é um relógio que nunca atrasa. Agora, vejo humanos invadindo quadrados de azulejo, discutindo direitos em voz alta enquanto a bexiga aperta. Uma confusão de quem pode entrar onde, como se o cheiro da biologia pudesse ser apagado por uma vontade da cabeça. Se o poste começou a mijar no cachorro, como dizem por aí, é porque vocês complicaram o que era para ser simples. Nós somos práticos.
Se dá vontade, o poste está ali. Ninguém se ofende, ninguém faz textão, ninguém invade o espaço alheio com ideologia. Mas, já que vocês transformaram o alívio fisiológico em um campo de batalha político e não conseguem se decidir sobre qual porta atravessar, eu tenho uma sugestão do mundo animal para o mundo 'civilizado': abandonem os banheiros.
Se a convivência está impossível e a confusão é a regra, usem todos uma sonda. Resolvam o problema na origem. Assim, ninguém precisa de placa na porta, ninguém grita com ninguém e vocês podem focar no que realmente interessa sem precisar se preocupar com a realidade do próprio corpo. Garanto que, para nós, o poste continuará lá, firme, forte e muito mais lógico do que qualquer shopping center.
Só uma pergunta: quando nós temos muitos filhotes, os humanos nós castram, ok. Mas o que vocês pretendem fazer com a baixíssima taxa de natalidade humana? Foi só um raciocínio de cachorro...

