O teatro curitibano recebe em fevereiro uma montagem que dialoga com uma das obras intelectuais mais influentes das últimas décadas. O espetáculo "Ficções", inspirado no best seller "Sapiens: Uma Breve História da Humanidade", do professor e filósofo israelense Yuval Noah Harari, chega ao Teatro Guaíra para duas sessões especiais nos dias 27 e 28 de fevereiro de 2026. Após percorrer todo o país, a peça estrelada pela premiada atriz Vera Holtz e escrita e encenada por Rodrigo Portella retorna à capital paranaense, onde já havia sido apresentada anteriormente.
Com mais de 23 milhões de cópias vendidas mundialmente desde seu lançamento em 2014, o livro de Harari serviu como ponto de partida para o espetáculo, idealizado pelo produtor Felipe Heráclito Lima. A montagem está em cartaz há mais de três anos ininterruptos, acumulando impressionantes 160 mil espectadores e mais de 400 apresentações. O retorno ao Guairão, especificamente ao Auditório Bento Munhoz da Rocha Neto, marca justamente essa celebração das quatro centenas de sessões.
Publicado originalmente em hebraico e traduzido para dezenas de idiomas, "Sapiens" propõe uma tese central: o grande diferencial do ser humano em relação às outras espécies é sua capacidade única de inventar, criar ficções e imaginar coletivamente. Segundo Harari, essa habilidade permitiu a cooperação em larga escala entre milhões de pessoas, dando origem a conceitos fundamentais como nações, leis, religiões, sistemas políticos e empresas. Mas o livro também levanta questões profundas sobre felicidade e progresso, indagando se estamos usando essa característica singular para construir ficções que proporcionem, coletivamente, uma vida melhor.
"É um livro que permite uma centena de reflexões a partir do momento em que nos pensamos como espécie e que, obviamente, dialoga com todo mundo. Acho que esse é o principal mérito da obra dele", analisa Felipe Heráclito Lima, que adquiriu os direitos para adaptar o livro para o teatro ainda em 2019, antes mesmo da explosão global da obra durante a pandemia.
Instigado pelas questões filosóficas trazidas por Harari e pela inevitável analogia com as artes cênicas – justamente por sua capacidade de criar mundos e narrativas fictícias – o encenador Rodrigo Portella desenvolveu um jogo teatral peculiar. "Um dos principais objetivos é explorar o sentido de ficção em diversas direções, conectando as realidades criadas pela humanidade com o próprio acontecimento teatral", resume o diretor.
Quando foi convidado para escrever e dirigir o espetáculo, Rodrigo imaginou inicialmente que selecionaria trechos do livro para transformar em cenas. "Ao começar a ler, entendi que não era isso. Era preciso construir uma dramaturgia original a partir das premissas do Harari que seriam interessantes para o espetáculo. Em nenhum momento, no entanto, a gente quer dar conta do livro na peça. Na verdade, é um diálogo que a gente está estabelecendo com a obra", enfatiza.
A estrutura narrativa não convencional tornou-se outro elemento determinante. "Eu queria fazer uma peça que fosse espatifada, não é aquela montagem que é uma história, que pega na mão do espectador e o leva no caminho da fábula. Quis ir por um caminho onde o espectador é convidado, provocado a construir essa peça com a gente. É uma espécie de jam session. É uma performance em construção, Vera e Federico brincam com tudo, com os cenários, tem uma coisa meio in progress", descreve Portella.
Para essa empreitada criativa, Rodrigo contou com a interlocução dramatúrgica de Bianca Ramoneda, Milla Fernandez e Miwa Yanagizawa. "Mesmo sem colaborar diretamente no texto, elas foram acompanhando, balizando a minha criação, foram conversas que me ajudaram a alinhar a direção, o caminho que daria para o espetáculo", revela o diretor.
No palco, Vera Holtz realiza um verdadeiro tour de force, desdobrando-se em personagens tanto da obra literária quanto em criações originais de Rodrigo Portella. A atriz canta, improvisa, "conversa" metaforicamente com Harari, brinca e instiga a plateia, além de interagir constantemente com o músico Federico Puppi – autor e performer da trilha sonora original, com quem divide o espaço cênico. Em diversos momentos, ela encarna a narradora; em outros, aparece como a própria atriz falando diretamente ao público.
"Eu gosto muito desse recorte que o Rodrigo fez, de poder criar e descriar, de trabalhar com o imaginário da plateia", destaca Vera Holtz sobre sua experiência com a montagem. "O desafio é essa ciranda de personagens, que vai provocando, atiçando o espectador. Não se pode cristalizar, tem que estar o tempo todo oxigenada", completa a atriz, referindo-se ao caráter dinâmico e interativo da performance.
O espetáculo "Ficções" tem duração de 80 minutos e classificação etária de 12 anos. Os ingressos já estão à venda através do DiskIngressos e na bilheteria física do Teatro Guaíra, localizado na Rua Conselheiro Laurindo, 175, no Centro de Curitiba. As apresentações acontecem às 21h, oferecendo ao público curitibano uma oportunidade única de experienciar uma reflexão teatral sobre uma das obras mais discutidas do século XXI.

