Há cerca de quatro anos, em meio à pandemia da covid-19, a designer paraibana Ligia Emanuel da Silva encontrou na ancestralidade africana uma forma de se reinventar. Com uma maleta de miçangas da mãe, ela começou a produzir acessórios e adornos em Rio Tinto, no litoral norte da Paraíba, dando origem ao Entorno Acessórios. "Eu já fazia para mim e passei a fazer para adornar outros corpos", revelou à Agência Brasil. O que começou como uma necessidade econômica transformou-se em um ato político e cultural. "Quando a gente se adorna com os nossos símbolos, nossos elementos estéticos-culturais, a gente articula um discurso sobre quem somos e de onde viemos", define.
A história de Ligia ilustra um movimento maior que tomou conta das favelas brasileiras durante a crise sanitária. Uma pesquisa realizada pelo instituto Data Favela, ligado à Central Única das Favelas (Cufa), mostra que 56% dos negócios nas comunidades começaram a funcionar a partir de fevereiro de 2020, quando a pandemia deu seus primeiros sinais no Brasil. O levantamento, encomendado pela empresa de serviços financeiros VR, entrevistou 1 mil empreendedores em outubro e novembro de 2025.
Para Cleo Santana, uma das responsáveis pelo Data Favela, o fenômeno está diretamente ligado à crise econômica. "Muitas pessoas perderam seus empregos e precisaram se reinventar e buscar novas formas de manter as necessidades básicas próprias e de sua família", explicou. "Por que não tornar aquela torta que era feita nas festas de família em um produto cuja venda traz renda para dentro de casa? É a capacidade de se reinventar", completa.
O perfil desses empreendedores revela uma realidade de desafios e resiliência. Praticamente metade (51%) fatura até R$ 3.040 por mês, sendo que 23% têm receita de até um salário mínimo (R$ 1.518 na época da pesquisa). Apenas 5% alcançam faturamento superior a R$ 15,2 mil. O mundo da contabilidade mostra que faturamento não é sinônimo de lucro: 57% dos estabelecimentos gastam até R$ 3.040 mensais para se manter, o que "leva a supor que os gastos são equivalentes ao que essas pessoas faturam mensalmente", segundo o Data Favela.
O capital inicial vem principalmente das economias pessoais ou da família (57%), com 37% dos empreendedores precisando de até R$ 1.520 para abrir o negócio. A administração ainda é bastante artesanal: 59% usam apenas anotações em caderno, 13% não registram nada e apenas 24% utilizam planilhas. Na divulgação, as redes sociais dominam: 75% usam Instagram (como Ligia), 58% WhatsApp e 41% Facebook, enquanto 34% dependem exclusivamente do boca a boca.
As motivações para empreender vão além da pura necessidade. No topo das respostas está o desejo de independência (45%), seguido por necessidade econômica (29%), falta de emprego (26%), oportunidade (18%) e tradição familiar (7%). Karina Meyer, diretora de Marketing da VR, observa que "para muitos, empreender não foi uma escolha planejada, mas uma necessidade imposta pela falta de oportunidades no mercado formal de trabalho ou pela urgência de gerar renda".
Os desafios são significativos: 51% citam falta de capital e 25% dificuldade de acesso ao crédito. "Ferramentas como crédito, soluções de gestão de negócio e digitalização de processos são primordiais para construir uma economia mais forte e sustentável nas favelas", assinala Karina Meyer.
Apesar das dificuldades, esses empreendimentos movimentam uma economia poderosa. Segundo o Data Favela, as comunidades brasileiras movimentam R$ 300 bilhões por ano. Cleo Santana destaca o papel transformador desses negócios: "Conforme um negócio nasce, surgem oportunidades locais de emprego, mesmo que informais, ajudando a movimentar a economia local. Pequenos empreendedores tendem a comprar no local, fortalecendo outros pequenos empreendedores".
O Censo 2022 do IBGE mostra a dimensão desse universo: 8% dos brasileiros (16,4 milhões de pessoas) moram em favelas, distribuídas em 12.348 comunidades em 656 municípios. Pretos (16,1%) e pardos (56,8%) representam 72,9% dos moradores, e as mulheres são 51,7% dos habitantes dessas áreas.
De volta ao Entorno Acessórios, Ligia continua trabalhando sozinha, usando o Instagram para divulgar peças que carregam saberes tradicionais. "Os adornos se fundamentam em saberes tradicionais, especialmente com o trabalho manual, com as miçangas e com os arames", descreve. Sua trajetória, como a de milhares de outros empreendedores das favelas, mostra que mesmo em tempos de crise é possível criar não apenas sustento, mas também significado e identidade.

