Ao escolher frutas, verduras e hortaliças, muitos consumidores brasileiros ainda se guiam por um padrão estético que privilegia produtos perfeitos, brilhantes e simétricos. No entanto, essa busca pela beleza plástica tem um custo alto: contribui significativamente para o desperdício de alimentos, tanto no Brasil quanto no mundo. A diferença entre um alimento realmente estragado e um simplesmente "feio" ou "imperfeito" é crucial para mudar esse cenário.

Alimentos mofados, amolecidos, com odor forte ou danificados internamente devem ser descartados, pois representam risco à saúde. Já aqueles com formato irregular, manchas superficiais ou cascas com cicatrizes naturais mantêm integralmente seu valor nutricional e segurança para consumo. Essas características muitas vezes surgem de fatores ambientais como ventos, chuvas ou interações naturais no campo, e não indicam deterioração.

"Nós aqui no Brasil temos a cultura de associar a perfeição e a beleza do alimento com o valor nutricional. E isso é um mito. Na verdade, nem tudo que sai da terra sai perfeito. Às vezes, o alimento estará um pouco tortinho. Às vezes, estará com uma cor um pouco diferente. Mas isso não inviabiliza o produto para comercialização", explica Márcia Stolarski, chefe do Departamento de Segurança Alimentar e Nutricional (Desan) da Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento (Seab).

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Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), o mundo desperdiçou 1,05 bilhão de toneladas de alimentos em 2022, equivalente a 132 quilos por pessoa e quase um quinto de todos os alimentos disponíveis para consumo. Desse total, 60% vem do desperdício doméstico, 28% dos serviços de alimentação e 12% do varejo. O desperdício alimentar é responsável por 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, conforme o Índice de Desperdício de Alimentos de 2024.

Márcia Stolarski alerta para as consequências desse comportamento: "Além do problema para o meio ambiente com a geração de gases para o efeito estufa, os alimentos que não são perfeitos, que acabam não sendo comercializados, afetam o agricultor também. Ele produz e não consegue retorno do seu investimento. Compromete toda a cadeia. Então, a conscientização do consumidor e os cuidados com o manuseio dos alimentos é que vão ajudar a reduzir o desperdício".

O engenheiro agrônomo do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), Raphael Branco de Araújo, detalha as origens dessas imperfeições: "Imagine a fruta lá no pé. Por algum motivo, alguém esbarra nela, algum inseto faz um dano superficial, ou surge um vento, um galho quebra e ocasiona uma ferida. O sistema metabólico da planta dará uma resposta a esse dano mecânico e se forma uma cicatriz. Ou uma mudança de cor mesmo, ficando um amarronzado que parece um risco. Isso não interfere em nada na qualidade da fruta".

No Paraná, diversas iniciativas estaduais combatem ativamente o desperdício de alimentos. O Banco de Alimentos Comida Boa transforma excedentes das Centrais de Abastecimento do Paraná (Ceasa-PR) em produtos para pessoas em vulnerabilidade social, doando mais de 600 toneladas mensais (7,5 mil toneladas anuais) e atendendo 160 mil pessoas. O programa também promove a reinserção social de apenados em regime semiaberto.

Outras ações incluem o programa Mais Merenda, que oferece três a cinco refeições diárias para cerca de 1 milhão de alunos em 2 mil escolas estaduais, com aproximadamente 5 mil toneladas de alimentos orgânicos destinados às escolas em 2025. O Cartão Comida Boa repassa R$ 80 mensais para 112.500 famílias em situação de vulnerabilidade, totalizando mais de 545 mil famílias atendidas desde 2021 com investimento de R$ 374 milhões.

O Compra Direta Paraná abastece entidades sociais com produtos da agricultura familiar, destinando R$ 77 milhões em 2025 através do Fundo Estadual de Combate à Pobreza. Recentemente, o estado divulgou o IV Plano Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional 2024-2027, que busca construir um sistema alimentar sustentável com fortalecimento da agricultura familiar e estratégias contra o desperdício.

O Paraná figura entre os estados com melhor acesso a alimentos segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A mudança de hábitos dos consumidores, reconhecendo que alimentos "feios" não são estragados, representa um passo fundamental para reduzir as perdas e construir uma cadeia alimentar mais justa e sustentável.