Unesp leva inovação aos colégios técnicos com FabLabs e hackathons
Parceria entre Agência de Inovação e escolas técnicas paulistas forma jovens para empreendedorismo e graduação
Publicado em 11/jan/26 | 15:32
A formação de jovens inovadores começa cada vez mais cedo nos colégios técnicos da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Uma parceria estratégica entre a Agência Unesp de Inovação (AUIN) e as três unidades técnicas da universidade está transformando a educação profissional paulista, criando ambientes onde estudantes do ensino médio já desenvolvem projetos com potencial de virar negócios ou pesquisas acadêmicas.
A missão do nosso projeto com as escolas técnicas é motivar os alunos para duas oportunidades, como empresários ou como alunos de graduação, afirma o diretor da AUIN, Saulo Guerra. Segundo ele, a iniciativa partiu da gestão da professora Maysa Furlan: achamos que seria uma grande oportunidade falarmos com pessoas mais novas e, assim, atrair nossos jovens para ficar na universidade.
A Unesp possui dois Colégios Técnicos Industriais (CTIs) em Bauru e Guaratinguetá, e um Colégio Técnico Agrícola (CTA) em Jaboticabal. O professor Marcelo Rodrigues, diretor do CTI em Bauru, explica que a temática de inovação e empreendedorismo já fazia parte do currículo, mas agora ganha novo impulso. Com a AUIN, estamos seguindo um caminho, tendo o aporte necessário, não só financeiro, mas de orientação e capacitação. Eu acho que isso vai ser muito bom a longo prazo.
Uma das ações mais concretas dessa parceria é a implementação de FabLabs (laboratórios de fabricação digital) nas três unidades. Com investimento garantido, os espaços estão sendo equipados com impressoras 3D (uma com tecnologia FDM e outra em resina) e uma máquina CNC a laser para corte e gravação. As inaugurações estão previstas para 2026.
O professor Marcos Juinthi Koba Morise, vice-diretor do CTA, vê nos novos equipamentos uma oportunidade para aperfeiçoar as criações dos estudantes. A impressora 3D e outros equipamentos vão auxiliar a criar produtos melhores e com estética mais bem desenvolvida, explica ele, destacando que os FabLabs atenderão a uma nova disciplina de prototipagem que entrará na grade curricular em 2026.
Enquanto os laboratórios físicos são construídos, os estudantes já participam de atividades práticas. No ano passado, a AUIN promoveu o primeiro Hackathon nos colégios técnicos - um evento que desafia os alunos a desenvolverem soluções inovadoras em tempo curto. O CTA de Jaboticabal foi o pioneiro, com estudantes criando um chatbot para a AUIN e um software para conectar empresas parceiras e alunos durante três dias intensos de trabalho.
É uma experiência bem legal. Eles aprenderam a trabalhar em equipe e sob pressão. Eles gostaram bastante, conta Marcos Morise. O diretor da AUIN, Saulo Guerra, explica que o tema foi pensado a partir de desafios reais da agência: Se uma das ideias virar uma tecnologia, depois ela pode ser aplicada e validada dentro da própria Unesp. O Hackathon será reproduzido nos CTIs de Bauru e Guaratinguetá ainda este ano e no próximo.
A parceria também rendeu frutos na 16ª edição da Feira Tecnológica do Centro Paula Souza (Feteps), onde a Unesp participou pela primeira vez em 2025. Com incentivo da AUIN, os três colégios técnicos se inscreveram na categoria de instituições parceiras, e o CTI de Bauru teve três projetos selecionados entre 26 finalistas.
Dos 26 projetos que foram classificados, nós de Bauru éramos os únicos com três propostas. Foi um feito bastante significativo, comemora o diretor Marcelo Rodrigues. Entre as ideias apresentadas estava um sistema de Diagnóstico Hematológico Inteligente, que une ciências biológicas e inteligência artificial para analisar exames de sangue.
Desenvolvido por Ivy Chiquito Netto (primeiro ano de eletrônica) e Silas Reuel (terceiro ano de informática), o projeto utiliza uma Rede Neural Convolucional (CNN) para reconhecer e classificar leucócitos em imagens de exames, com acurácia de aproximadamente 90%. Pretendemos estabelecer parceria com uma clínica de análises sanguíneas para ampliar nossa base de dados e aprimorar o modelo, explica Ivy, que já entrou em contato com a AUIN para proteger a propriedade intelectual. Nosso objetivo futuro é disponibilizar a tecnologia ao Sistema Único de Saúde (SUS), garantindo acesso gratuito à população.
Carolina Silveira, Assistente Técnica Administrativa da AUIN, se surpreendeu com a criatividade dos jovens. Ver o aluno de ensino médio fazendo tanta coisa, com tão pouco, foi muito gratificante, afirma. Embora os projetos não tenham sido premiados, a experiência foi valiosa. O evento foi de muita importância para os alunos porque eles conheceram outros projetos, puderam andar nos stands, perguntar como que eles fizeram.
Para Ivy, a feira foi transformadora: me proporcionou uma das experiências mais marcantes da minha vida e foi, para mim, motivo de um orgulho imenso. A estudante, que pretende cursar Engenharia Mecatrônica após concluir o técnico, reflete: Essa experiência ampliou meu olhar, percebi que a pesquisa vai muito além da teoria.
Os colégios técnicos da Unesp oferecem ensino médio integrado a cursos técnicos em quatro áreas: agropecuária e informática (Jaboticabal), mecânica (Guaratinguetá), e eletroeletrônica, eletrônica e informática industrial (Bauru). As unidades estão vinculadas a faculdades da universidade, o que permite aos estudantes contato precoce com o ambiente acadêmico.
O aluno tem esse contato com o ambiente universitário já no ensino médio. E isso facilita até para a posterior escolha do curso, se for ingressar na Unesp, destaca Marcelo Rodrigues. Além dos projetos de inovação, os estudantes são incentivados a participar do PIBIC Júnior, desenvolvendo pesquisas como bolsistas - em Bauru, há uma média anual de 30 a 50 alunos no programa.
Ivy Netto resume bem o impacto dessa formação: O Colégio Técnico da Unesp, de certa forma, foi o ponto de encontro entre o meu sonho e as pessoas certas para torná-lo realidade. Para o diretor Rodrigues, o curso técnico traz a questão de disciplina, trabalho em equipe, que é muito importante, depois para o mercado de trabalho, e também a questão da autonomia.
Com a construção desse ecossistema de inovação, o diretor da AUIN espera resultados concretos nos próximos anos. Que tenhamos mais potência para os nossos alunos apresentarem projetos, porque agora eles têm um laboratório didático melhor, têm um Fablab - que não existia - e têm um ecossistema mínimo de inovação nascendo na escola técnica, projeta Saulo Guerra, que acredita no retorno da iniciativa dentro de três anos.
A parceria entre AUIN e colégios técnicos representa mais do que uma simples modernização de infraestrutura. É um investimento no futuro da inovação paulista, formando desde cedo jovens que podem seguir tanto o caminho do empreendedorismo quanto da pesquisa acadêmica, fortalecendo assim o ecossistema de ciência e tecnologia do estado.