A Bolívia enfrenta uma onda de protestos que desafia o governo recém-empossado de Rodrigo Paz, no poder há apenas seis meses. Uma série de bloqueios em estradas ao redor de La Paz, a capital do país, paralisa a região há quase 30 dias, com manifestantes exigindo a revogação da Lei 1.720 e, em alguns casos, a renúncia do presidente.

A lei, promulgada em 10 de abril deste ano, autoriza a conversão de pequenas propriedades tituladas em propriedades médias, que poderiam ter acesso a créditos. Para o governo, a medida impulsionaria a agricultura e reativaria a economia, que sofre com crises cambiais e escassez de dólares. No entanto, movimentos indígenas e campesinos alertam que a legislação coloca em risco terras coletivas, podendo desalojar pequenos proprietários e expô-los à especulação imobiliária.

A doutoranda em ciência política pela USP Alina Ribeiro, que estuda a Bolívia, explica que os movimentos populares temem a desintegração das terras comunais. "O ideal seria que o governo facilitasse o crédito também para pequenas propriedades porque na Bolívia tem comunidades indígenas, reconhecidas pelo Estado, que se organizam em territórios comunitários originários. Eles falam é que esse tipo de lei pode estimular uma desintegração desses territórios", afirmou à Agência Brasil.

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As marchas começaram ainda no início de abril, saindo dos departamentos de Pando e Beni, no norte do país, em direção a La Paz. Atualmente, milhares de manifestantes bloqueiam acessos à capital, em uma mobilização que já dura quase 30 dias e percorreu mais de 400 quilômetros. A adesão de outros setores, como professores e mineiros, ampliou o movimento.

A Central Operária Boliviana (COB), principal central sindical do país, convocou greve geral por tempo indeterminado, denunciando repressão policial e detenções de lideranças. A central também demanda aumento de 20% no salário mínimo. "Como é um país muito pequeno, se você inviabiliza as entradas de La Paz, não chega alimento, não chegam recursos e aí o governo é obrigado a tentar se articular com essas organizações que estão mobilizadas", explica Alina Ribeiro, que também atua no Núcleo de Democracia e Ação Coletiva do Cebrap.

Em 12 de maio, o presidente Rodrigo Paz revogou a lei alvo das marchas, dando 60 dias para o Parlamento discutir um novo texto. "Como resultado do diálogo, como resultado da união de todos os bolivianos, a Lei 1.720 foi revogada. Temos que tratar de uma nova normativa para todo o país, uma nova lei fundiária baseada no consenso, por meio de consulta pública e ouvindo todos os setores", disse Paz em comunicado oficial.

No entanto, lideranças sindicais consideram a revogação insuficiente. Humberto Claros, dirigente da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), afirmou que "essa é uma trégua de 60 dias porque depois você e sua gangue elitista vão aprovar outra lei feita sob medida para o Cainco e seus supostos camponeses, para roubar terras dos verdadeiros camponeses e grilar terras".

A tensão aumenta à medida que o governo tenta criminalizar o movimento, acusando dirigentes, sem apresentar provas, de serem financiados pelo narcotráfico. O ex-presidente Evo Morales também é apontado como mentor dos protestos. Na sexta-feira, Paz elevou o tom contra os manifestantes que pedem sua renúncia, acusando-os de tentar "destruir a democracia". "Aqueles que, no passado, tentaram destruir esta democracia irão para a cadeia, porque o valor da democracia está acima de qualquer interesse pessoal", disse durante evento no Palácio do governo.

Evo Morales, em rede social, negou envolvimento e acusou Paz de planejar uma operação militar, com apoio dos EUA, para prendê-lo ou assassiná-lo. "Quando bloqueiam os neoliberais, direitistas, racistas, latifundiários e patrões, é liberdade, democracia e causa justa. Quando protestam os trabalhadores, mineiros, fabris, professores, indígenas e camponeses, é violência, terrorismo, ilegal, antidemocrático", afirmou.

A crise política e social na Bolívia se acumula desde dezembro de 2025, quando o governo editou o Decreto 5.503, que retirava subsídios aos combustíveis. Após protestos, o governo recuou e retomou os subsídios em janeiro. Alina Ribeiro destaca que as medidas do novo governo geram forte reação em uma sociedade castigada por anos de crise econômica. "A principal reclamação das pessoas são os preços das coisas. Desde azeite no supermercado, até o combustível, viagens, preço de ônibus. É realmente uma das reclamações recorrentes", comentou.

Nesse contexto, o governo de Rodrigo Paz criou uma comissão para estudar mudanças na Constituição Plurinacional da Bolívia, promulgada durante os governos de Evo Morales, considerada progressista e que valoriza as nacionalidades indígenas. Além disso, anunciou um pacote de projetos para alterar legislações sobre petróleo, gás natural, investimentos, mineração, regras eleitorais, segurança nacional, reforma do Judiciário e "redução do Estado". A pesquisadora Alina Ribeiro explica que "são mudanças no sentido de viabilizar o investimento externo na produção de recursos naturais, na exportação da Bolívia. Tem acordos que foram firmados com diferentes empresas, por exemplo, para a extração de materiais como o lítio, que é um material-chave no caso boliviano". Setores opositores acusam o governo de "vender" o país ao capital estrangeiro. A liderança sindical Humberto Claros afirma: "O país hoje se opõe às suas leis e decretos de ajustamento neoliberal que saqueiam o país e a classe popular, que dão privilégios aos ricos e miséria aos pobres, e ele está longe de compreender os sentimentos da população mobilizada contra seus pacotes de austeridade".