A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, anunciou nesta quarta-feira (1º) que a empresa estuda tornar o Brasil autossuficiente na produção de óleo diesel dentro de cinco anos. A declaração ocorre em meio a uma escalada recente de preços do combustível no mercado global, impulsionada pela guerra no Irã, que expõe a vulnerabilidade energética do país.

Atualmente, o Brasil precisa importar cerca de 30% do óleo diesel consumido internamente. Este derivado do petróleo é essencial para o transporte de cargas e passageiros, sendo utilizado por caminhões, ônibus e tratores que movimentam a economia nacional. A dependência de importações torna o país suscetível a flutuações internacionais, como as observadas recentemente.

Durante um evento sobre energia promovido pela rede de TV CNN Brasil, em São Paulo, Chambriard explicou que o plano de negócios da companhia tinha como meta inicial atingir 80% da demanda nacional, com expansão de cerca de 300 mil barris de diesel por dia em cinco anos. "Estamos revendo esse plano e nos perguntando se podemos chegar a 100% em cinco anos", afirmou ela. "Muito provavelmente, porque a Petrobras adora desafios, quem sabe a gente chega com a possibilidade de ter um novo plano de negócios capaz de entregar a autossuficiência do Brasil em diesel", completou.

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O plano de negócios da Petrobras, que começará a ser discutido em maio e costuma ser divulgado em novembro, poderá incorporar essa nova ambição. A busca pela autossuficiência surge como resposta estratégica ao cenário geopolítico turbulento, onde conflitos no Oriente Médio – região que concentra produtores de petróleo e rotas estratégicas como o Estreito de Ormuz – distorcem a cadeia global e elevam preços.

De acordo com Magda Chambriard, a expansão da produção de diesel pode ser alcançada com uma série de ações já em curso nas refinarias da empresa. Uma delas é a expansão da Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Ipojuca, região metropolitana do Recife. Projetada para entregar 230 mil barris de diesel por dia, com ampliações e renovações chegará a 300 mil barris diários.

Outro ponto crucial é o aumento de produção da Refinaria Duque de Caxias (Reduc), no Rio de Janeiro, que, associada ao Complexo de Energias Boaventura (antigo Comperj), terá sua capacidade atual de 240 mil barris por dia elevada para cerca de 350 mil. A presidente informou que a busca por mais produção está sendo feita em todas as refinarias da Petrobras, incluindo adaptações nas quatro localizadas em São Paulo para reduzir a produção de óleo combustível e priorizar o diesel.

"Diesel é o combustível mote do desenvolvimento nacional. A gente aumentando [a produção de] diesel, a gasolina vem junto, os dois principais produtos Petrobras", afirmou Chambriard, destacando o papel central do combustível na economia.

O anúncio ocorre em um momento de forte pressão sobre os preços. Do início da guerra no Irã, em 28 de fevereiro, até a semana terminada em 22 de março, o preço do óleo diesel S10 (menos poluente) subiu cerca de 23% no país, segundo dados do painel de acompanhamento da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). No último dia 14, a Petrobras implementou um reajuste de R$ 0,38 no litro.

O governo federal tem tomado medidas para frear a alta, como a zeragem das alíquotas dos tributos federais PIS e Cofins, além de subvenções para produtores e importadores. Há ainda negociações para um subsídio de R$ 1,20 por litro em conjunto com os estados. Paralelamente, outro combustível, o querosene de aviação (QAV), sofreu reajuste de 55% nesta quarta-feira, impactando os custos das companhias aéreas.

O conflito no Oriente Médio, que envolve países produtores e rotas por onde passam 20% da produção mundial de petróleo, elevou o preço do barril tipo Brent para pouco acima de US$ 101 (cerca de R$ 520), ante cerca de US$ 70 antes da guerra. Este cenário reforça a urgência de planos como o apresentado pela Petrobras, que busca não apenas reduzir a dependência externa, mas também estabilizar o fornecimento e os preços de um insumo vital para o Brasil.