Editoras independentes e livrarias de rua resistem e inovam no mercado editorial

Setor gera 70 mil empregos diretos e promove cultura, mas enfrenta desafios econômicos e busca políticas públicas

Publicado em 11/jan/26 | 13:03
Editoras independentes e livrarias de rua resistem e inovam no mercado editorial
Fonte: Agência Brasil / EBC

Enquanto grandes conglomerados editoriais enfrentam crises e recuperações judiciais, um movimento paralelo vem ganhando força no Brasil: editoras independentes e livrarias de rua estão desenvolvendo estratégias criativas para garantir a qualidade das publicações e driblar os desafios econômicos do setor. Segundo levantamento da Câmara Brasileira do Livro (CBL), incluindo as empresas de maior porte, o mercado editorial e livreiro gera ao menos 70 mil empregos diretos no país.

Profissionais ouvidos pela Agência Brasil apontam a promoção da cultura nacional e a geração de empregos e renda como impactos positivos desses negócios. No entanto, eles destacam a necessidade urgente de políticas públicas voltadas à disseminação da leitura e incentivos fiscais para a manutenção desses empreendedores culturais.

O florescimento das independentes

O editor e publisher da editora Autonomia Literária e da revista Jacobina, Cauê Seignemartin Ameni, relata que o florescimento das editoras independentes começou há cerca de 10 anos. "O independente sempre foi muito marginal e, aí, veio com força após 2015", afirma Cauê, que também é um dos organizadores da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei).

Segundo ele, as editoras independentes surgiram para preencher um vácuo deixado pelas grandes editoras. "A editora independente é marginalizada no mercado. Então, ela está sempre tentando transformar esse mercado", explica. Cauê aponta que, antes do fenômeno das independentes, publicações de grandes clássicos estavam estagnadas por causa de "um viés ideológico de grandes editoras e conglomerados".

Importação de ideias e debates contemporâneos

As editoras independentes têm se dedicado a trazer para o Brasil debates atuais que circulam em outras partes do mundo. Cauê cita temas como China, inteligência artificial, crise climática, ascensão do fascismo na Europa, Estado Islâmico e Palestina. "O meu papel é de importador de ideias, de certa forma", resume.

Ele relaciona essa circulação de ideias com a compreensão de fenômenos políticos brasileiros. "Se as pessoas não entendem, o país acaba entrando numa grande confusão, numa grande enrascada, que foi o bolsonarismo. Se criou um caldo cultural para isso", analisa. Durante a ascensão da extrema-direita, Cauê percebeu que muitos títulos relevantes internacionalmente não eram publicados no Brasil. "A gente começou a crescer nesse vácuo, fazendo um debate contra tudo aquilo que o olavismo e a extrema-direita pregavam."

Estratégias de sobrevivência financeira

Um dos maiores desafios do mercado editorial independente é o ciclo de vendas. Como estratégia para se manter financeiramente saudável sem abrir mão da qualidade editorial, algumas empresas criaram modelos alternativos. A editora Ubu, por exemplo, mantém um clube do livro com 2 mil assinantes.

Diretora editorial e sócia da Ubu, Florencia Ferrari explica que "[os assinantes] nos dão um cheque em branco para nossa curadoria. E, ao fazer isso, eles nos permitem manter uma editora com um catálogo de alta qualidade, que não abre mão de nenhuma maneira dessa qualidade, e que não precisa ir atrás de títulos que tem como objetivo vender bastante".

O modelo tradicional de distribuição também representa um desafio. Os livros são colocados nas livrarias no sistema de consignação, e os pagamentos podem demorar até 90 dias para serem realizados. "O dinheiro volta para as editoras de um jeito muito pingado e lento em relação ao tempo inicial. Às vezes, demora oito, dez, 12 meses ou dois anos para uma edição ter o retorno do seu investimento", relata Florencia.

Estratégias de guerrilha e inovação

Diretor presidente da Associação Quatro Cinco Um, Paulo Werneck ressalta que, em contexto de adversidades, os negócios independentes precisam criar "estratégias de guerrilha". "Os editores independentes têm que ser super ágeis, têm que inventar um novo canal de vendas, ter contato direto com o público, tem que criar feiras de livro. São empresários resilientes e criativos, tem que ficar reinventando seu próprio negócio todo ano", afirma.

Entre as inovações adotadas estão a venda direta pelos sites das editoras e o uso do modelo Print on Demand (POD), ou impressão sob demanda, que elimina a necessidade de grandes estoques e tiragens iniciais.

Impacto cultural e urbano

A presença das livrarias de rua tem um impacto que vai além do comercial. Werneck defende que elas permitem a formação de pequenos núcleos culturais nos bairros. "Elas transformam o bairro, tudo o que está ao redor. É dos poucos comércios que têm esse efeito", destaca.

Dados da CBL mostram que, entre os 1.830 municípios que têm livrarias, o Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades (IDSC) é 3% superior à média nacional. "Basta ver o que está acontecendo aqui no centro de São Paulo. Vira um programa cultural ir em uma livraria. E quem sustenta esse programa? O livreiro independente", exemplifica Werneck.

Demandas por políticas públicas

Os profissionais do setor são unânimes em apontar a necessidade de políticas públicas de apoio. Werneck cita incentivos como editais voltados ao setor, isenção de IPTU, acesso a crédito e apoio de entes públicos aos eventos oferecidos pelos empreendimentos. "Livrarias oferecem uma programação cultural gratuita, como lançamentos e debates. Você pode entrar, assistir e ir embora sem comprar um livro, e elas não têm nenhum incentivo para a realização desta programação."

Florencia Ferrari reforça que os resultados alcançados pelo setor editorial têm impacto para a cultura, educação e qualidade de vida das pessoas. "O estado deveria se atentar, porque é um tipo de financiamento relativamente baixo, por exemplo, para compra de livros para biblioteca e para alunos, que são políticas públicas de aquisição de exemplares. Às vezes, é só isso que uma cidade precisa: uma biblioteca com livros acessíveis".

Ela lembra ainda que as editoras reúnem uma diversidade de profissionais - ilustradores, designers, fotógrafos, revisores de texto, tradutores - e que investimentos no setor teriam reflexos na geração de empregos e mobilização da economia.

Crescimento do setor

Apesar dos desafios, o mercado editorial e livreiro brasileiro mostra sinais de expansão. Entre 2023 e 2025, houve um crescimento de 13% no número total de empresas, com destaque para o avanço das editoras e do comércio varejista de livros. E, de 2024 para 2025, o aumento foi consistente em todos os segmentos mapeados, segundo a CBL.

Para Cauê, da Autonomia Literária, é fundamental que as obras circulem além dos nichos. "Se só trabalhar na bolha, não se faz a disputa. Tem que jogar nas livrarias, vai ter que correr o risco do calote, mas vai fazer o seu livro circular em grande escala". Além da defesa de isenções fiscais para livrarias, ele menciona soluções como incentivo à leitura por meio de crédito para estudantes e incentivos para modernização do parque industrial do setor.


Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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