Benin oferece cidadania a descendentes de africanos escravizados

Programa 'Minhas Origens Afro' busca reconectar diáspora e fortalecer laços históricos

Publicado em 14/jan/26 | 17:01
Benin oferece cidadania a descendentes de africanos escravizados
Fonte: Agência Brasil / EBC

Isaline Attelly, uma criadora de conteúdo de 28 anos natural da ilha caribenha da Martinica, vivia no Benin há quase um ano quando fez uma descoberta que mudou sua percepção sobre suas raízes. Registros genealógicos confirmaram que sua bisavó materna nasceu no que hoje é o Benin e, durante o auge da escravidão transatlântica, foi traficada para o outro lado do Oceano Atlântico. A revelação, ocorrida no ano passado, levou Attelly a se inscrever em um novo programa que oferece cidadania beninense a pessoas de ascendência africana.

O programa My Afro Origins (Minhas Origens Afro) é uma parte importante do plano do presidente Patrice Talon para aumentar o perfil de seu país, destacando seu papel histórico no tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. "Para mim, é uma fonte de orgulho. Parece que minha jornada completou o círculo", disse Attelly à agência de notícias Reuters após sua cerimônia de naturalização. "Estou orgulhosa e muito feliz por poder representar meus ancestrais", revelou.

As primeiras cerimônias de naturalização coincidiram com a revelação de projetos destinados a dar vida a essa história. Entre as iniciativas estão uma nova Porta sem Retorno em Ouidah, um ponto de partida comum para o tráfico transatlântico de escravos, e uma réplica de um navio do século 18 que transportava pessoas escravizadas, com esculturas representando quase 300 cativos. Ambos os projetos ainda estão em construção.

O governo também planeja inaugurar este ano um novo Museu Internacional da Memória e da Escravidão na antiga residência de Francisco Felix de Souza, um importante traficante de pessoas escravizadas nos séculos 18 e 19. Talon, que sobreviveu a uma tentativa de golpe no mês passado e deve encerrar seu mandato de dez anos após uma eleição presidencial em abril, recrutou figuras internacionais para divulgar sua visão.

O cineasta Spike Lee e sua esposa Tonya Lee Lewis foram nomeados no ano passado embaixadores do programa para a comunidade afro-americana. "Nossos irmãos e irmãs em Benin estão nos dizendo: voltem para casa, recebam-nos em casa, voltem para a terra natal. Voltem (para) onde estão suas raízes", disse Lee ao canal de televisão France 24 no ano passado.

Em julho de 2025, a estrela norte-americana de R&B Ciara tornou-se uma das primeiras beneficiárias da cidadania beninense. Ela se apresentou na semana passada em um show em Ouidah como parte de um festival anual dedicado ao vodu, tocando sucessos como Level Up durante um show que durou até as três da manhã. Seu marido, o quarterback de futebol norte-americano Russell Wilson, compareceu e disse que esperava se tornar um cidadão "muito em breve".

O programa de cidadania ocorre em um momento de fortalecimento das relações diplomáticas do Benin com outros países, incluindo o Brasil. Notícias recentes destacam que o presidente Lula e o presidente do Benin discutiram cooperação em agricultura e conexão aérea, enquanto comitês trabalham para ampliar a cooperação cultural entre as duas nações. Essas iniciativas refletem um esforço mais amplo para reconectar a diáspora africana com suas origens históricas.


Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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