Uma agência reguladora do Reino Unido emitiu um alerta sobre casos de pancreatite aguda como causa de mortes associadas a canetas emagrecedoras, e o Brasil já registra dados que corroboram essa preocupação. De acordo com informações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), há mais de 200 casos suspeitos de pancreatite ligados a medicamentos usados para diabetes e obesidade no país. Especialistas reforçam a necessidade de uso apenas com indicação e acompanhamento médico adequado, destacando os riscos do consumo sem supervisão.

Marcio Corrêa Mancini, médico e chefe do Grupo de Obesidade do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, comenta as preocupações em torno das canetas emagrecedoras. “Esses medicamentos estão no mercado há quase 20 anos, e a cada ano que passa evoluem sua eficácia e comodidade posológica. Durante esse período, cerca de um milhão e meio de pessoas utilizaram esse tratamento no Reino Unido e foram relatados 19 casos de pancreatite, de acordo com os dados dessa agência.”

O especialista acrescenta: “Isso quer dizer que as pessoas precisam ficar alertas, esses remédios têm que ser usados com acompanhamento médico e com indicação de uso correto. Os maiores riscos que são enfrentados atualmente são a compra dos medicamentos de fontes não confiáveis, que são geralmente manipulados e contrabandeados, e quando a aplicação é realizada na própria clínica, o que é algo completamente irregular.”

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Inicialmente desenvolvidos para o tratamento de diabetes tipo 2, esses medicamentos demonstraram eficácia também no combate à obesidade. Mancini explica: “Quando falamos na redução da hemoglobina glicada, um parâmetro utilizado na avaliação de eficácia de remédios para diabetes, em geral, os remédios reduziam a hemoglobina glicada entre 0,5% e 1%.” Ele completa: “A última geração desses remédios reduz mais de 2% da hemoglobina glicada, uma redução que chega quase ao mesmo porcentual de uma cirurgia bariátrica. Por isso, eu digo que são tratamentos revolucionários, tanto no combate à diabetes quanto no combate à obesidade e, em função disso, são cada vez mais procurados pela população.”

Quanto às recomendações e riscos, o médico destaca a importância do acompanhamento regular. “Primeiro de tudo, para a realização do tratamento, é fundamental o acompanhamento regular médico, com prescrição de receita para o medicamento, algo que ocorre desde o ano passado, graças às exigências da Anvisa. A pancreatite, um dos principais efeitos colaterais da utilização, é uma dor aguda na parte superior do abdômen que é irradiada para as costas. O paciente vai notar que essa não é uma dor convencional e vai procurar o médico novamente; por meio de uma tomografia computadorizada a pancreatite vai ser identificada e o tratamento será iniciado.”

Mancini explica que a pancreatite pode ser causada pela rápida perda de peso induzida pelos medicamentos, que leva à formação de cálculo biliar. “Qualquer perda de peso rápida, como a bariátrica, o uso da caneta ou até mesmo com dieta, pode resultar no cálculo biliar que resulta na pancreatite.” Além disso, ele alerta para a perda excessiva de massa muscular: “Pacientes com mais idade em uso desse medicamento têm que ser orientados a ter uma ingestão de proteína de, no mínimo, 1,2 gramas por quilo de peso e ter uma atividade física principalmente centrada em exercícios de resistência de musculação para preservar a massa muscular.”

O médico finaliza com um dado preocupante: “Existem estudos mostrando que a perda de massa muscular chegou a mais de 40% da perda total de peso. Ou seja, o paciente tem que perder peso, mas ele tem que perder primordialmente massa de gordura, não muscular, caso contrário ele terá uma enorme fragilidade e prejuízo para a saúde.” Assim, o alerta reforça a necessidade de cautela e supervisão médica no uso desses tratamentos, evitando riscos à saúde e garantindo benefícios seguros.