A guerra no Oriente Médio tem apresentado um cenário que surpreende analistas militares e estratégicos: a capacidade de ação do Hezbollah no sul do Líbano e das milícias xiitas no Iraque está colocando Israel e os Estados Unidos em uma posição defensiva inesperada. Enquanto o grupo libanês anuncia dezenas de ações militares diárias contra Israel, as forças pró-Irã no Iraque intensificam a pressão pela retirada das tropas americanas do país.

No fronte libanês, o Hezbollah tem mantido uma ofensiva constante. Segundo o grupo, "quase" 100 tanques Merkava israelenses foram destruídos desde o início dos conflitos. Somente nas últimas 24 horas, teriam sido realizadas 103 operações contra alvos israelenses. Essa intensidade de ações tem dividido as forças israelenses, que agora precisam lidar com duas frentes de combate simultaneamente.

No Iraque, a situação também se agravou significativamente. Após um ataque que matou 15 combatentes das Forças de Mobilização Popular (FMP) na cidade de Habbaniyah, o governo do primeiro-ministro Mohammed Shia al-Sudani endureceu o tom contra Washington. As FMP foram autorizadas a exercer o direito à autodefesa, e o governo iraquiano apresentou uma "carta de protesto veemente" ao encarregado de negócios dos EUA em Bagdá.

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A Resistência Islâmica no Iraque, coalizão de facções armadas pró-Irã, tem reivindicado ataques com drones e mísseis contra bases americanas e a embaixada dos EUA. A tensão é tamanha que a própria embaixada emitiu alertas de segurança, recomendando que cidadãos americanos não se aproximem das instalações diplomáticas "devido ao risco contínuo de mísseis, drones e foguetes no espaço aéreo iraquiano".

Para o professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais, Danny Zahreddine, o Irã está em posição vantajosa após quase um mês de guerra. "Reativar a frente libanesa com o Hezbollah dividiu a força israelense em duas frentes. A vitória das milícias iraquianas, forçando a saída dos americanos de lá, enfraquece do ponto de vista simbólico e real, porque aumenta a capacidade defensiva do Irã", analisa o também oficial de artilharia da reserva do Exército brasileiro.

O major-general português Agostinho Costa, especialista em segurança e geopolítica, concorda que o Irã detém a "vantagem estratégica". "O Irã apresentou, tanto no domínio dos mísseis, como no domínio dos drones, como na parte marítima com enxames de embarcações rápidas que lançam mísseis antinavio, um conjunto de soluções para as quais o poder aéreo norte-americano e israelense estão anuladas", afirma o ex-vice-presidente da Associação EuroDefese-Portugal.

No Líbano, a recuperação do Hezbollah tem sido um fator decisivo. Zahreddine avalia que o grupo surpreendeu ao demonstrar grande capacidade de resistência e articulação tática. "Eles têm ainda muitos mísseis e foguetes. Dezenas e dezenas de tanques Merkava devem ter sido destruídos mesmo. É uma condição difícil para Israel", completa o professor.

Agostinho Costa destaca que o uso de drones FPV pelo Hezbollah tem sido particularmente eficaz contra veículos blindados israelenses, atacando pontos vulneráveis dos tanques. Essa tática confere vantagem sobre as unidades blindadas que formam a base da capacidade ofensiva do exército israelense.

Quanto às defesas de Israel, há divergências sobre sua efetividade. Enquanto Tel-Aviv afirma interceptar cerca de 90% dos mísseis iranianos e do Hezbollah, especialistas questionam o impacto dos 10% que conseguem penetrar. "Se eles interceptarem 90% dos mísseis e se 10% entram, esses 10% que entram criam um problema real para Israel, porque eles atingem alvos estratégicos", observa Danny Zahreddine.

O major-general Costa é ainda mais cético: "Os 10% que sobram são aqueles que fazem estrago. E os mísseis que têm passado, nomeadamente no norte de Israel, levam-nos a concluir que, neste momento, Israel já é obrigada a fazer uma análise criteriosa do que é que se defende e do que deixa passar".

Apesar dos bombardeios sofridos, o Irã mantém capacidade ofensiva significativa. Zahreddine destaca que, mesmo no 28º dia de guerra, "os iranianos conseguem ter domínio do espaço aéreo dos países do Golfo e conseguem ainda penetrar suas armas dentro de Israel. Isso revela uma capacidade de resiliência altíssima".

Agostinho Costa complementa que o Irã já lançou 86 levas de mísseis e drones desde o início do conflito, utilizando sistemas de lançamento subterrâneos que dificultam a resposta inimiga. "Os mísseis movimentam-se em túneis, abrem umas tampas de aço e são lançados, fechando antes de dar tempo de reação da parte norte-americana ou israelense", explica.

O cenário atual mostra uma guerra que se expande para múltiplas frentes, com atores não-estatais desempenhando papel central. A combinação da pressão do Hezbollah no Líbano com a ação das milícias xiitas no Iraque está criando um desafio complexo para as potências ocidentais e seus aliados na região, sugerindo que o conflito pode se prolongar com custos crescentes para todos os envolvidos.