Uma obra fundamental para compreender a história do teatro e do movimento negro no Brasil acaba de ganhar nova vida nas livrarias. "Teatro Experimental do Negro: testemunhos e ressonâncias", organizada originalmente por Abdias Nascimento em 1966, foi recuperada e ampliada pela socióloga Elisa Larkin Nascimento e pelo gestor cultural Jessé Oliveira. O lançamento aconteceu na última primavera, em novembro, marcando os 80 anos da fundação do TEN, cujos ensaios começaram em outubro de 1944.

A publicação, uma parceria entre Edições Sesc e Editora Perspectiva, chega com 328 páginas que vão muito além de um simples registro histórico. A edição traz textos de figuras emblemáticas como o dramaturgo Nelson Rodrigues, o poeta Efrain Tomás Bó, e dos cientistas sociais Guerreiro Ramos e Florestan Fernandes, entre outros. Um dos destaques é o ensaio fotográfico de José Medeiros, com imagens em preto e branco que capturam a essência do elenco do TEN.

Criado menos de 60 anos após a abolição da escravidão, o Teatro Experimental do Negro surgiu com um propósito claro: valorizar a herança cultural afro-brasileira, destacar histórias negras e dar protagonismo a autores e atores que eram sistematicamente excluídos do cenário artístico nacional. Entre 1945 e 1958, o TEN encenou mais de 20 espetáculos, com peças brasileiras e estrangeiras, revelando talentos que se tornariam ícones, como Léa Garcia e Ruth de Souza.

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"Quem definia os temas [das peças], os textos [a serem encenados] e quem definia o rumo das atuações essa eram as pessoas negras", assinala Jessé Oliveira. "O Teatro Experimental do Negro é um divisor de águas. Amplia o local de debate das questões raciais e estabelece profissionalismo em uma companhia teatral negra."

Para Elisa Larkin Nascimento, o TEN "faz a ponte entre o teatro moderno e contemporâneo no Brasil" e apresenta uma versão da sociedade brasileira diferente do discurso oficial e de parte da intelectualidade da época, que propagava a ideia de uma "democracia racial", conceito fortemente associado ao sociólogo Gilberto Freyre.

A nova edição mantém o objetivo da publicação original de "fazer um registro mais estável" e contribuir para evitar o apagamento da história do TEN. Essa preocupação se mostra mais que necessária quando Elisa Larkin Nascimento relata: "Nas escolas de teatro, sempre vêm me dizer que não conhecem o Teatro Experimental do Negro. Inclusive os jovens que estão cursando teatro e estudam a história do teatro brasileiro".

A obra mostra como as concepções de Abdias Nascimento seguem ressoando em práticas cênicas e coletivos atuais, mantendo vivo o ideal de um teatro antirracista. Abdias, que faleceu em 2011, foi uma figura múltipla: artista plástico, ativista, ator, deputado federal, dramaturgo, economista, escritor, poeta, professor universitário e senador. Em todos esses papéis, defendeu incansavelmente a liberdade e o comprometimento com a transformação social.

O relançamento deste livro acontece em um momento crucial para o debate racial no Brasil, onde dados recentes mostram que jovens negros chegam à universidade, mas não ao mercado de trabalho em condições de igualdade, e mais da metade dos negros diz não saber como denunciar casos de racismo. Nesse contexto, a obra se torna não apenas um registro histórico, mas um instrumento de reflexão sobre caminhos ainda a serem percorridos na luta por equidade e representatividade.