A letra de Tum Tum, samba composto por Rita Lee e Roberto de Carvalho, parece sintetizar o espírito da homenagem que a artista receberá no carnaval carioca de 2026. "Eu bato samba de guitarra/ Eu gosto tanto de café/ Quanto de Coca-Cola... Existem sempre os dois lados da questão", diz a canção, registrada no álbum Santa Rita de Sampa (1997). Agora, a rainha do rock brasileiro, falecida em 2023, será celebrada pela Grêmio Recreativo Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel no enredo Rita Lee, a padroeira da liberdade.

À primeira vista, rock e samba podem parecer combinações improváveis, mas a Mocidade convida a todos a misturar esses universos. A sinopse do enredo, apresentada à comunidade da escola, é um chamado carinhoso: "Chega mais, Rita. Vem para o templo do samba fazer um monte de gente feliz. Bota esse povo para cantar tuas músicas de letras afiadas, irreverentes, bem-humoradas, divertidas. Alegremente carnavalescas. Teu 'rockcarnaval'. Baila. Como se baila na tribo. Desbaratina. Lança teu perfume na avenida".

Segundo a agremiação, Rita Lee foi um "sopro libertário" e seu "roque enrow" serviu como "um deboche lisérgico [alucinante] que refrescou e mudou a cena musical no país". Essa veia disruptiva da homenageada coloca a Mocidade em sintonia com outras escolas de samba que, em seus desfiles, reverenciam figuras que quebraram barreiras e mudaram paradigmas.

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O samba, na verdade, não é um gênero estranho à trajetória de Rita Lee. Além de Tum Tum, ela gravou com João Gilberto Joujoux e Balangandãs, de Lamartine Babo, e compôs com Roberto de Carvalho o samba Brasil é com S, também interpretado por João Gilberto. A artista ainda registrou Samba do Arnesto (de Adoniran Barbosa e Alocin) com Demônios da Garoa e criou a marchinha de carnaval Frou frou, com Roberto de Carvalho. Sua admiração por Carmem Miranda também era conhecida, chegando a imitar "a pequena notável" na música I like you so much.

Para Marcelo Misailidis, responsável pela coreografia da comissão de frente da Mocidade, os atributos de Rita Lee a tornam um enredo perfeito. "Ela foi uma pessoa que teve uma postura contestadora. Alguém muito lúcida e atenta às questões que realmente interessavam", descreve ele à Agência Brasil, definindo-a como "uma mulher fascinante". Com formação em balé clássico e experiência no Sambódromo, Misailidis vê os desfiles como "uma grande ópera a céu aberto", onde diversas expressões artísticas se cruzam, incluindo tributos a uma roqueira.

A escolha de Rita Lee como enredo foi anunciada em 22 de maio do ano passado, coincidindo com o Dia de Santa Rita de Cássia, considerada a santa dos casos impossíveis. O carnavalesco Renato Lage, que já venceu quatro carnavais do grupo especial – três com a Mocidade –, está à frente dos preparativos. Entre 13 sambas apresentados, o escolhido em setembro tem autoria de Jeffinho Rodrigues, Diego Nicolau, Xande de Pilares, Marquinho Índio, Richard Valença, Orlando Ambrósio, Renan Diniz, Lauro Silva, Cleiton Roberto e Cabeça do Ajax, com uma letra que prega: "quem foge ao padrão vence a regra".

O principal intérprete na avenida será Igor Vianna, estreante na escola e filho de Ney Vianna (1942-1989), que cantou para a Mocidade nos anos 1970 e 1980 e foi campeão com a agremiação em 1985. A Mocidade desfilará na segunda noite do grupo especial (segunda-feira, 16 de fevereiro), sendo a primeira escola a se apresentar naquela noite. Com seis títulos (1979, 1985, 1990, 1991, 1996 e 2017), a agremiação espera emocionar o público com essa homenagem.

Roberto de Carvalho, viúvo de Rita Lee, prometeu estar com a família na avenida, desfilando pela Mocidade. Em visita à escola durante os preparativos, ele desejou "que tudo seja perfeito, de acordo com o astral que eu sinto aqui no rolé na Mocidade de Padre Miguel", como registrou a agremiação e ele replicou em seu perfil no Instagram. O desfile promete ser um momento histórico, unindo o legado da rainha do rock à força do samba carioca, em uma celebração da liberdade e da irreverência que marcaram a vida e a obra de Rita Lee.