O samba "Quando eu me chamar saudade", composto por Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito e gravado por Nelson Gonçalves nos anos 1970, traz um pedido tocante: "Me dê as flores em vida/ Para aliviar meus ais/ Depois que eu me chamar saudade/ Não preciso de vaidade/ Quero preces e nada mais". Em 2026, a Unidos do Viradouro, escola de samba de Niterói, atende a esse apelo ao homenagear em vida o mestre de bateria Ciça, que completa 70 anos em julho.

Moacyr da Silva Pinto, conhecido no mundo do samba como Mestre Ciça, é o mais longevo mestre de bateria em atividade. Consideradas o "coração rítmico" e a "alma" do desfile, as baterias são conduzidas por mestres como ele, que fazem os arranjos, ensinam os percussionistas e lideram o grupo para empolgar as arquibancadas do Sambódromo, com cerca de 120 mil espectadores. Um ofício que exige não apenas talento musical, mas também habilidade para lidar com a emoção e o ritmo da festa.

"É uma honra estar sendo homenageado e estar ao mesmo tempo sendo julgado [no desfile de carnaval]. Uma coisa inédita em vida, esse acontecimento. Estou vivendo um momento único. Está sendo muito legal, muito bacana", relata Ciça à Agência Brasil, com emoção. Diferente de muitos homenageados, ele não desfilará em um carro alegórico, mas no chão, conduzindo a bateria da Viradouro, quesito que será avaliado pelos jurados.

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O currículo de Ciça pesou na escolha do enredo. Além da Viradouro, onde é mestre de bateria e ajudou a conquistar os títulos de 2020 e 2024, ele já regeu as baterias da Unidos da Tijuca, Grande Rio, União da Ilha e Estácio de Sá, onde começou em 1988 e venceu o carnaval de 1992. Reconhecido pelas bem ensaiadas paradinhas, sua trajetória inspirou a homenagem.

"Nós tínhamos algumas possibilidades de enredo que acabaram não vingando, porque uma escola lançou um enredo muito próximo do nosso. E aí o presidente Marcelinho [Marcelo Calil Petrus] trouxe a possibilidade de fazermos o Mestre Ciça", explica Tarcísio Zanon, carnavalesco da Viradouro. "A gente ficou muito feliz em fazer essa homenagem, de contar a história desse grande sambista, uma história incrível. A pesquisa foi muito gostosa de fazer. Mestre Ciça é muito acessível, muito próximo da gente."

A história de Ciça será contada em 23 alas, com até 3,5 mil componentes, que cantarão o samba-enredo "Pra cima, Ciça!", composto por 12 autores, incluindo Claudio Mattos, Renan Gemeo e Marcelo Adnet. O refrão diz: "Se eu for morrer de amor, que seja no samba/ Sou Viradouro, onde a arte o consagrou/ Não esperamos a saudade pra cantar/ Do mestre dos mestres, herdei o tambor", reforçando o tema das flores em vida.

O desfile da Viradouro ocorrerá no segundo dia do Grupo Especial do Rio de Janeiro, 16 de fevereiro, ao lado de escolas como Mocidade Independente de Padre Miguel, que homenageia Rita Lee, e Unidos da Tijuca, com enredo sobre Carolina Maria de Jesus. Enquanto notícias do carnaval abordam temas como denúncias de 'blackface' em fantasias e a despedida do bloco Suvaco do Cristo após 40 anos, a homenagem a Ciça destaca a valorização viva de ícones do samba.

Para os fãs do carnaval, acompanhar enredos que contam histórias não oficiais, como a de Ciça, é uma forma de celebrar a cultura brasileira. A cobertura completa pode ser seguida na Agência Brasil, com detalhes sobre os desfiles e as homenagens que, como no samba de Cavaquinho e Brito, preferem as flores em vida à saudade.