O que aconteceu com Medeia depois que ela desapareceu? Essa pergunta, que intriga estudiosos da mitologia grega há séculos, serviu de ponto de partida para a dramaturga Luciana Lyra criar uma peça que discute maternidade, violência de gênero e exploração da natureza. Medeia depois do Sol estreia nesta sexta-feira (6) no Sesc Ipiranga, em São Paulo, com temporada que se estende até 29 de março.
A peça chega aos palcos próximo ao Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, trazendo uma releitura contemporânea da clássica tragédia grega Medeia, escrita por Eurípedes. A obra original narra a história da amante de Jasão que, após ser rejeitada e desprezada, decide matar os próprios filhos para infligir a mesma dor que lhe foi causada. Na versão de Lyra, a personagem se transforma em símbolo para refletir sobre a violência de gênero no Brasil e no restante da América Latina.
"A história de Medeia é uma narrativa mítica ligada à transição de mundo matriarcal para um patriarcal. Ela é vista como uma figura não desejada por cometer atos difíceis, como o homicídio dos próprios filhos. Mas essa atitude tem a ver com o desejo de não querer que seus filhos sigam o caminho centrado no poder, como de Jasão," explica Luciana Lyra, que também atua na peça sob a máscara da personagem-título ao lado da atriz-musicista Lisi Andrade.
Um dos aspectos mais interessantes da pesquisa de Lyra foi descobrir que, ao contrário da maioria das tragédias gregas onde as figuras femininas morrem ao final, Medeia sobrevive e foge com ajuda do deus-sol Hélios, que também é seu avô. "Para onde foi Medeia depois de fugir com o avô?" tornou-se a pergunta central que a dramaturga levou para pequenos workshops com grupos de teatro de Recife, Rio de Janeiro e São Paulo.
Nas conversas com coletivos teatrais, as mulheres participantes geralmente levantavam experiências próprias para especular o destino da personagem. As histórias revelaram muita opressão, especialmente relacionadas à maternidade: o cuidado dos filhos sempre relegado às mulheres, a maternidade compulsória, o questionamento da necessidade de ser mãe sendo mulher, a maternagem (cuidar de outras pessoas além de pais e filhos) e até a negação da própria maternidade.
A pesquisa de campo se estendeu para além dos palcos. Lyra entrou em contato com a comunidade de Tejucupapo, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, conhecida por seu histórico de mulheres guerreiras descendentes das heroínas que lutaram com poucos recursos em 1646. Na região, a artista ouviu o relato chocante de uma mulher que matou sete de seus dezessete filhos para que não vivessem em uma estrutura de precariedade extrema.
A dramaturga também realizou pesquisas no Equador e teve contato com mulheres de Montevidéu, no Uruguai, que discutiam o mito de Medeia. "Observo muitas semelhanças nas narrativas das mulheres do Brasil e de outros países da América Latina. O que aproxima as mulheres latinas é o fato de o continente estar em constante opressão na defesa de seus recursos naturais e territórios," analisa Lyra.
Essa conexão entre mulher e natureza é explorada na peça através do que Lyra descreve como ecofeminismo. "A ideia é discutir a paridade entre o corpo da mulher e o corpo da Terra, na questão de que ambos são constantemente violados. É um espelhamento que acontece à medida que nossos espaços e corpos são invadidos, da mesma forma que a Terra está sendo destruída," explica a dramaturga.
Um diferencial significativo na montagem foi a decisão de ter uma equipe de criação formada quase exclusivamente por mulheres. A direção é assinada por Ana Cecília Costa e Kátia Daher, e a trilha sonora reúne músicas originais de Alessandra Leão e da própria Luciana Lyra. A equipe criativa conta ainda com Leusa Araujo (dramaturgismo), Renata Camargo (direção de gesto e movimento), Carol Badra (figurino) e Camila Jordão (cenografia e iluminação), tendo a direção de produção de Franz Magnum.
O espetáculo Medeia depois do Sol está em cartaz no Sesc Ipiranga de 6 a 29 de março, com exibições às 21h30 nas sextas-feiras, e às 18h30 nos sábados e domingos. A peça tem duração de 60 minutos, com ingressos variando entre R$ 15 e R$ 50. O Sesc Ipiranga fica na Rua Bom Pastor, 822, no Ipiranga, em São Paulo.

