Trinta anos após sua publicação original, o romance "Ensaio sobre a Cegueira", do português José Saramago, ganha uma montagem teatral que está sendo aclamada como "obra-prima" pela crítica brasileira. O Grupo Galpão, uma das companhias mais respeitadas do país, apresenta "(Um) Ensaio Sobre a Cegueira" na Mostra Lucia Camargo do 34º Festival de Curitiba, com sessões nos dias 31 de março e 1º de abril no Auditório Salvador de Ferrante, o tradicional Guairinha.
A história criada por Saramago, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 1998, começa com um homem que fica cego repentinamente no trânsito. Uma epidemia de "cegueira branca" se espalha por uma cidade não identificada, levando ao colapso das estruturas sociais e colocando à prova a moral, a ética e as noções coletivas de convivência. No livro, publicado originalmente em 1995, os personagens são confinados num manicômio, onde as condições mínimas de higiene e sobrevivência ficam ameaçadas.
Segundo o ator Eduardo Moreira, integrante do Grupo Galpão, o espetáculo é uma reflexão sobre os "limites tênues entre civilização e barbárie". "A verdade é que o romance de Saramago se tornou, com o tempo, ainda mais atual. As autocracias, a ameaça à democracia, todos estes aspectos que se acentuam vertiginosamente no mundo contemporâneo estão presentes, de forma incisiva, na distopia apresentada pelo romance", afirma o artista.
Com direção de Rodrigo Portella, a montagem faz adaptações pontuais no texto original para aproximá-lo da realidade brasileira contemporânea. Uma delas é a caracterização do primeiro personagem a ficar cego como um evangélico. Outra mudança significativa transforma a mulher do médico no personagem da "mulher que vê", uma das poucas personagens que mantém a visão em meio ao caos.
"Algumas adaptações foram feitas pontualmente para trazer o romance mais para perto de nossa visão contemporânea", explica Moreira. "Mudanças que trouxeram o texto para mais perto de nossa visão mais contemporânea, em que a ameaça distópica é ainda mais ameaçadora e presente nos nossos dias, o que só potencializa o caráter do texto."
O Grupo Galpão, formado em Belo Horizonte em 1982, tem uma tradição de colaborações com grandes diretores brasileiros como Paulo José, Gabriel Vilella e Márcio Abreu. Sobre o trabalho com Portella, Moreira descreve um processo "profundamente transformador": "Além de um diretor com uma visão aguçada do teatro e do trabalho do ator, é um excelente dramaturgo, que articula com grande habilidade o poder das palavras e a capacidade de expressar as ideias do romance."
Outro destaque da montagem é a direção musical de Federico Puppi. O grupo desenvolveu uma oficina com o músico, resultando na composição de 10 músicas originais utilizadas integralmente no espetáculo. "Foi realmente um trabalho profundamente revelador, que nos possibilitou mergulhar na intrínseca relação entre o trabalho musical e a criação teatral e dramatúrgica", comenta o ator sobre a experiência.
A peça tem duração de 140 minutos e classificação indicativa de 16 anos. Os ingressos para as duas apresentações no Guairinha já estão esgotados, demonstrando o grande interesse do público curitibano pela montagem. O espetáculo integra a programação da Mostra Lucia Camargo, que neste ano conta com apresentação da Petrobras, Sanepar e Governo do Estado do Paraná, além da Prefeitura de Curitiba e Fundação Cultural de Curitiba, com patrocínio de EBANX, Viaje Paraná e Copel.
"Os personagens, confinados num manicômio, veem-se ameaçados nas condições mínimas de higiene e de sobrevivência. As regras de convivência ficam severamente ameaçadas", reflete Moreira sobre o núcleo dramático da obra. "Tudo isso faz com que a civilização se mostre enfraquecida e a fera selvagem que cada um de nós traz dentro de si ameace pular para fora e mostrar suas garras."
Três décadas após sua criação, a distopia de Saramago continua a dialogar com questões urgentes da sociedade contemporânea, encontrando no trabalho do Grupo Galpão uma interpretação que ressoa profundamente com o momento atual do Brasil e do mundo.

