A décima edição da Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), maior evento do gênero na Bahia, terá como grande homenageada a poeta e jornalista baiana Myriam Fraga (1937-2016). Marcada para o período de 5 a 9 de agosto no centro histórico de Salvador, a festa consolida-se como um dos principais encontros literários do país, inspirando-se no modelo da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Realizada desde 2017 pela Fundação Casa de Jorge Amado, que completa 40 anos em 2024, a Flipelô foi idealizada pela própria Myriam Fraga com o objetivo de preservar e valorizar a memória do escritor Jorge Amado, além de promover a cultura e a arte baiana e estimular a literatura, especialmente entre os jovens. "Ao participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2006, ano em que Jorge Amado foi homenageado, ela voltou com uma ideia na cabeça, transformar o Pelourinho em palco de uma grande festa literária", relembra Angela Fraga, filha da poeta e atual presidente da fundação.

Myriam Fraga é considerada uma das maiores escritoras e poetas brasileiras, com 25 livros publicados e uma intensa colaboração em revistas e jornais. Ela foi responsável pela coluna Linha D’Água, publicada pelo jornal A Tarde entre 1984 e 2004, e integrou a Academia de Letras da Bahia. Sua produção poética retrata questões sociais específicas do Nordeste, traz representações da Bahia e busca uma construção do feminino, ressignificando figuras e temas da mitologia.

Publicidade
Publicidade

Além de sua trajetória literária, Myriam foi uma das grandes entusiastas da Fundação Casa de Jorge Amado, que ajudou a fundar. Seu empenho levou Jorge Amado e Zélia Gattai a convidá-la para administrar a instituição, cargo que exerceu até o final da vida. "Confesso que nesse instante [do convite para dirigir a fundação] tive um breve momento de pânico. Trabalhara intensamente para que o projeto se tornasse realidade. Sinceramente esperava poder continuar de algum modo a trabalhar nele, mas de repente ser colocada na direção parecia-me uma tarefa para qual possivelmente não estava preparada", disse a poeta em depoimento.

Infelizmente, Myriam não pôde ver a concretização de sua ideia, já que faleceu em 2016, um ano antes da primeira edição da Flipelô. "Aos poucos essa ideia foi se concretizando e, assim, em 2017 conseguimos realizar a primeira edição da Flipelô. Infelizmente, Myriam Fraga não conseguiu ver a concretização de sua ideia. Agora, na décima edição, achamos mais do que justo homenageá-la", completou Angela Fraga.

Além da homenagem à poeta, a Flipelô também celebrará o trabalho do artista Calasans Neto, grande amigo de Myriam Fraga. Pintor, gravador, ilustrador, desenhista, entalhador e cenógrafo baiano, Calasans Neto ilustrou as obras de Myriam desde a publicação do primeiro livro dela, Marinhas (1964). Essa amizade foi elogiada por Jorge Amado em seu livro Navegação de Cabotagem: "A dupla é imbatível, Calá nasceu para ilustrar a poesia de Myriam, os poemas e as monotipias são da mesma matéria, visceral".

A festa, que já foi descrita pelo curador como "o carnaval das Letras no Pelourinho", promete uma programação diversificada, incluindo conversas com autores, como a já realizada com Lázaro Ramos, além de iniciativas de sustentabilidade, como coleta seletiva e descarte de livros. A homenagem a Myriam Fraga reforça o papel da Flipelô não apenas como um evento literário, mas como um espaço de valorização da memória cultural baiana e do legado de seus grandes nomes.