A noite de sexta-feira (24) transformou a praça central de Tiradentes, em Minas Gerais, em uma grande sala de cinema ao ar livre. A exibição do longa Querido Mundo, dirigido por Miguel Falabella, reuniu um público numeroso e atento, marcando um dos momentos altos da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. O evento, que segue até 31 de janeiro, reafirma sua posição como a primeira grande vitrine do calendário audiovisual brasileiro no ano.
O filme, um drama protagonizado por Malu Galli e Eduardo Moscovis, acompanha dois personagens presos nos escombros de um prédio abandonado na virada do ano, atravessados por frustrações pessoais. Temas como dependência emocional, violência doméstica e a possibilidade de recomeço costuram a narrativa, que provocou reações intensas da plateia ao longo da sessão gratuita. O silêncio atento e a emoção palpável no ar testemunharam o encontro afetivo do público com o audiovisual nacional.
Antes da projeção, o próprio Falabella apresentou o filme e compartilhou com os presentes sua travessia até a direção cinematográfica. "Dirigir um filme era algo que, durante muito tempo, me parecia impossível. Mas eu queria contar essa história. Criar, entrar e inventar um novo mundo é fascinante", disse o artista, recebido com calorosos aplausos. A fala revelou o significado pessoal do projeto para quem é mais conhecido por sua atuação no teatro e na televisão.
O diálogo com o público continuou na manhã deste domingo (25), em uma conversa aberta onde Falabella ampliou as reflexões sobre processo criativo, atuação e linguagem cinematográfica. Ao comentar sua trajetória, ele destacou a centralidade do corpo do ator na construção da cena, um aspecto que, em sua visão, tem sido negligenciado. "Hoje em dia pouca gente trabalha isso, o corpo do ator. É uma outra construção, outra postura, outro diafragma, outro enunciado", afirmou, evocando experiências das montagens teatrais dos anos 1980.
O encontro ganhou contornos de homenagem quando Falabella falou da emoção de integrar a mesma edição da mostra que o cineasta Júlio Bressane, com quem trabalhou no filme Cleópatra. "Isso não tem preço. Ele tem uma dimensão totalmente antinaturalista. Para quem vem da televisão, acostumado ao naturalismo, é um exercício poderoso: você precisa descobrir outra maneira de dizer aquilo, de dar credibilidade a um texto difícil", refletiu. A fala ilustrou o desafio e o aprendizado que representou transitar entre linguagens tão distintas.
Falabella ainda destacou o caráter provocador de um cinema que exige um esforço ativo tanto do ator quanto do espectador. "É não pegar a pessoa pela mão o tempo todo. É exercitar a cabeça", resumiu, arrancando risos e concordâncias da plateia. A afirmação ecoa o tema da 29ª edição da mostra, "Soberania Imaginativa", que convida justamente a esse exercício de interpretação e construção de sentido por parte de quem assiste.
Com uma programação inteiramente gratuita, a Mostra de Cinema de Tiradentes ocupa a cidade histórica com exibições, debates e encontros que celebram e refletem sobre a produção audiovisual brasileira. A exibição de Querido Mundo e a presença de Miguel Falabella encapsulam o espírito do festival: um espaço de encontro, emoção e profunda reflexão sobre a arte de fazer cinema no Brasil. A programação completa pode ser consultada no site oficial da mostra.

