A casa tinha muitos cômodos vazios, empoeirados e sem móveis, porque o cientista era muito exigente e não tinha empregados, não aceitava que alguém mexesse nas suas coisas particulares e preferia morar numa casa abandonada a admitir que alguém pudesse cuidar dela melhor que ele.

 

Era um homem rico, seus dois filhos tinham carta branca para gastar todo o dinheiro que conseguissem e sempre havia mais. Incrivelmente, o cientista era generoso com os dois. O mais velho, já adolescente, era da turma do "paz e amor", do "perdoar e esquecer", vivia uma vida zen e tinha poucos amigos e muitos seguidores em redes sociais, pois falava coisas bonitas, ainda que filosofias baratas, muito meme e pouca atitude, mas o povo curtia, comentava e compartilhava, dane-se o resto. Cabeludo, barbudo, com jeito hippie.

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Já o mais novo, tinha uma diferença de idade bem grande, era aquele menino de nove anos, da quinta série, que adorava se fantasiar no Halloween, queimar formigas com a lupa, contar pequenas mentiras e fazer pegadinhas. A vida dele, aliás, era um eterno Halloween, sempre fingindo ser o que não era e provocando risos em seus milhões de seguidores no canal de vídeos da Internet. Ruivo, sardento, cabelo encaracolado e olhar de quem sempre tem uma piadinha idiota para gozar quem o levasse a sério. 

 

O cientista se divertia com a popularidade dos dois e não sabia dizer qual deles era o filho preferido. Dizia que preferia o bonzinho, mas secretamente admirava a criatividade do menor e gostava de tentar adivinhar qual seria a próxima travessura, mas sem admitir, para não incentivar a baderna. Dizia até que as travessuras um dia passariam dos limites e que deserdaria o bagunceiro e daria toda a herança para o "monge", mas esse dia nunca chegava e a Internet pegava fogo com os dois.

 

O cientista fazia experimentos com bactérias. Colocava uma lâmina no microscópio, acendia a luz e ficava observando os micróbios se reproduzindo, desordenadamente, uns matando os outros para sobreviver. Uma vez por semana, o cientista descansava, pois se dava por satisfeito com as bactérias. Saía do laboratório e se deitava na rede da varanda, chamando as estrelas pelo nome, que ele mesmo dava a elas.

 

Aí, o pimentinha entrava no laboratório e brincava com as bactérias. Uma vez, usou um extintor de incêndio e congelou a colônia com gás carbônico, matou todas... O pai descobriu depois que já tinham morrido, desinfetou a lâmina e criou outra colônia, com outros tipos de micróbios. Pois o travesso borrifou um antisséptico e inundou a colônia, matando 99,9% delas (conforme prometia o rótulo). Mais uma vez, o pai descobriu e resolveu colocar uma fechadura na porta do laboratório, em forma de arco-íris, para os filhos não se esquecerem de que, para matar a colônia de novo, só se o laboratório pegasse fogo, era uma advertência, um sinal de que o velho estava falando sério e que só ele tinha o direito de se divertir com as bactérias.

 

E a colônia pululava, se reproduzia, consumia o meio de cultura e não produzia nada digno de nota. Há tempos, o cientista já não anotava nada no seu relatório de pesquisas, já estava entediante, aquela colônia já estava se esgotando, enquanto fonte de conhecimento. Então, o cientista, para não desinfetar definitivamente a colônia, resolveu plantar enzimas nela, acelerando o processo de autodestruição. As bactérias entraram em choque umas com as outras e deixaram de se reproduzir, iniciou-se um processo de canibalismo e o fim da colônia estava próximo. 

 

Como o interesse do cientista é simplesmente observar as bactérias em pânico, ele se divertia, ao ver que algumas delas tentavam alcançar a luz do microscópio e pareciam clamar pela misericórdia do cientista, mas ele não conseguia ouvir as "vozes" das bactérias, apenas via seu movimento desesperado e isso não lhe causava nenhuma reação, pois, como já disse, era apenas mais uma lâmina no microscópio, com mais uma colônia de micróbios, igual a tantas outras.

 

Daqui a pouco, o cientista higieniza a lâmina e introduz outra nova colônia de bactérias, acende de novo a luz do microscópio e seus dois filhos continuam a produzir conteúdo para redes sociais. Nas anotações do cientista, ele mesmo denominou esse processo de limpeza da lâmina e de acendimento da luz do microscópio como "FIAT LUX". O filho mais novo apelidou de "BIG BANG" e o mais velho diz pros seguidores que ele apoia o pai nas pesquisas desde a primeira lâmina. 

 

E foram todos felizes para sempre e sempre!

 

 

Esta fábula é completamente fictícia e em momento algum o autor insinua que a humanidade é apenas mais uma colônia inútil de bactérias!

 

 

COMENTÁRIOS (666)

@Friedrich_Nietzsche_Oficial ✅ • há 1 minuto Cara, na moral... Se eu estivesse vivo, eu teria escrito exatamente esse artigo! Matou a charada da colônia. O monge do Instagram vai chorar, mas a verdade é essa: o microscópio não tem ouvidos. Tamo junto! 👊🔥 #NiilismoRaiz #FiatLuxÉOCaramba