Em um cenário nacional e global marcado por divisões e debates acirrados, o teatro se apresenta como espaço privilegiado para reflexão sobre o diálogo. É nesse contexto que a Mostra Lucia Camargo, dentro da programação do Festival de Curitiba, recebe a peça Dois Papas, nos dias 6 e 7 de abril, no Auditório Bento Munhoz da Rocha Neto, o famoso Guairão. A montagem brasileira do texto do autor Anthony McCarten reúne dois pesos-pesados da cena nacional, Celso Frateschi e Zécarlos Machado, em um duelo cênico que vai muito além de um simples embate, explorando ideias, fé, poder e, sobretudo, a possibilidade de escuta.
Com direção de Munir Kanaan, a peça leva aos palcos um encontro ficcional entre dois líderes máximos da Igreja Católica com visões de mundo radicalmente opostas: o Papa Bento XVI, alemão e conservador, interpretado por Zécarlos Machado, e o então cardeal argentino Jorge Bergoglio, progressista e futuro Papa Francisco, vivido por Celso Frateschi. A trama parte de um momento crucial: Bergoglio viaja a Roma decidido a pedir sua aposentadoria, mas é surpreendido por um convite para uma conversa particular com Bento XVI, que, por sua vez, considera renunciar ao pontificado diante das enormes pressões e crises enfrentadas pela instituição.
O que se desenrola é um diálogo denso, carregado de tensão, mas também permeado por respeito e flashes de humor, no qual visões antagônicas encontram um espaço raro para confronto e, potencialmente, transformação. "Apesar de ser um homem mais aberto, é Bergoglio quem chega hesitante ao encontro. Já Bento XVI, mais conservador, é quem propõe o diálogo. É nesse jogo de complexidades que a trama se desenrola. O que move essa história é justamente a possibilidade de escuta mútua diante das diferenças", observa o diretor Munir Kanaan, destacando a inversão de expectativas que alimenta o drama.
Esta é a primeira montagem internacional do texto teatral de Anthony McCarten, que também é autor do livro homônimo e do roteiro do aclamado filme da Netflix dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles. A dramaturgia ganhou projeção mundial ao ser indicada a três Oscars, quatro Globos de Ouro e cinco prêmios Baftas. No palco, a encenação brasileira busca uma imersão na intimidade e nos dilemas pessoais desses dois homens públicos, tentando revelar a humanidade por trás das vestes e dos títulos papais.
Zécarlos Machado ressalta a atualidade pungente da obra. "Vivemos um tempo em que cada um tem sua própria verdade, muitas vezes de forma agressiva. A peça propõe um caminho de reconciliação pela escuta, pelo reconhecimento do humano no outro — mesmo que ele pense diferente", diz o ator. Celso Frateschi, que tem em seu repertório montagens de peso como "O Grande Inquisidor" e "Processo de Giordano Bruno", vai além, afirmando que a discussão extrapola em muito o universo religioso. "São duas visões de mundo antagônicas que nos fazem refletir sobre a polarização e os impasses do nosso tempo. A dramaturgia é potente, filosófica, mas profundamente acessível", afirma.
A encenação aposta em um forte aparato visual para sustentar essa narrativa. Um cenário predominantemente branco, concebido quase como uma instalação cênica, se transforma continuamente através de figurinos, objetos e projeções de videomapping. Essa técnica insere conteúdos documentais e amplia o impacto estético, construindo desde ambientes sacros e solenes até momentos de rara intimidade e confissão. A trilha sonora, por sua vez, conduz as transições de cena com sutileza, completando a experiência sensorial.
A trajetória da peça no Brasil é marcada por sucesso de crítica e público. Estreada mundialmente em junho de 2019, no Royal & Derngate Theatre, na Inglaterra, ela chegou ao país com produção da Gengibre Multimídia e da Zug Produções. Após uma temporada de estreia no Sesc-SP, com sessões esgotadas e ampla repercussão, o espetáculo foi convidado para inaugurar a Sala Nobre do Teatro Cultura Artística, em São Paulo, marcando a retomada das atividades naquele espaço histórico. O reconhecimento veio com prêmios: "Dois Papas" venceu o Prêmio Arcanjo de Cultura como Melhor Drama do Ano e teve seus dois protagonistas indicados ao Prêmio APCA na categoria Melhor Ator.
A apresentação em Curitiba integra a Mostra Lucia Camargo do Festival de Curitiba, que conta com apresentação da Petrobras, Sanepar e Governo do Estado do Paraná, além da Prefeitura de Curitiba e Fundação Cultural de Curitiba. O patrocínio é do EBANX, Viaje Paraná e Copel, com realização do Ministério da Cultura e Governo Federal. O espetáculo, classificado como livre, terá acessibilidade com intérprete de Libras. Uma oportunidade para o público curitibano testemunhar no palco do Guairão um poderoso exercício de diálogo, justamente quando ele parece mais necessário.

