No DNA linguístico da palavra enredo está o verbo enredar. Ambas têm ascendência latina, derivando de 'rete' (rede). Como bem sabem linguistas, pescadores e peixes, o enredo resulta de uma trama de fios que envolvem e capturam. Na arte, essa trama precisa prender seus espectadores – e é exatamente sobre isso que trata a segunda edição, revista e ampliada, do livro Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos, dos autores Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato, lançado pela Mórula Editorial.
A publicação mergulha na genuína forma que os sambistas cariocas criaram há quase 100 anos para contar e refazer a história. A nova versão do livro acrescenta a análise da revolução dos enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro a partir da segunda década deste século. São narrativas que, depois de envolver 120 mil pessoas no Sambódromo e milhões pela televisão e nas novas mídias, frequentemente encontram seu caminho até as salas de aula e os livros didáticos.
As origens do enredo no carnaval
Em entrevista à Agência Brasil, os autores explicam que os desfiles de escolas de samba, como os conhecemos hoje, começaram efetivamente em 1932. "Curiosamente, nós tivemos concursos [das escolas de samba] antes disso", conta Luiz Antonio Simas. "O [jornalista, escritor e pai de santo] José Espinguela [1890-1944] foi quem organizou, mas não eram concursos com desfiles em cortejo. Eram disputas entre escolas de samba que, entretanto, se limitavam às apresentações e a escolha do melhor samba."
Simas destaca que as escolas de samba não inventaram a ideia do enredo. "Os enredos faziam parte dos cortejos de grandes sociedades e ranchos carnavalescos – sobretudo, dos ranchos de carnaval. O Ameno Resedá [fundado em 1907], que era considerado um rancho, desfilava com enredos de relevância cultural etc." O que as escolas de samba fizeram foi redimensionar essa perspectiva e, principalmente, consolidar uma trilha sonora completamente distinta: o samba-enredo.
A união entre enredo e samba
Fábio Fabato aponta que o primeiro samba-enredo de que se tem notícia surgiu em 1939, com a Portela. "Até então, essa coisa de um tema fortíssimo, único, não existia. Em 1939, a Portela faz isso. O Paulo da Portela [1901-1947] cria um desfile que é um simulacro da própria escola de samba, mostrando que é uma escola. Temos um samba e temos um enredo [Teste ao Samba], com uma premissa de enredo."
Simas complementa: "Antes de 1939, os enredos não precisavam ter relação direta com o samba. Então, você podia apresentar um enredo visualmente sobre um tema e cantar samba sobre temas completamente distintos. Em 1939, a Portela propõe essa coesão entre enredo e samba."
O enredo como espinha dorsal
Questionados se o enredo é o esqueleto e o samba-enredo o músculo do desfile, Fabato concorda: "Pode. Obviamente, a espinha dorsal de uma escola de samba vai ser sempre o ritmo, a bateria, o samba e tal. Agora, tudo começa no enredo, né? Primeiro lança-se o enredo e aí vem o samba-enredo, depois o desenho rítmico da bateria em cima desse samba-enredo. A origem, o começo de um grande carnaval, está em num grande enredo."
Simas ressalta a singularidade do samba-enredo: "É um gênero completamente inusitado na história da música popular brasileira, porque primeiro ele é um gênero feito sob encomenda. Então, você elabora um samba vinculado a um enredo que foi proposto. Nesse sentido, também, o samba enredo acaba sendo o único gênero de música urbana que nós temos, que, em vez de ser lírico, é épico. Ele se coloca a serviço de contar alguma história exemplar que um enredo propõe."
Como se escolhe um enredo?
O processo de escolha do enredo varia bastante entre as escolas. Fabato explica: "Muitas vezes, é [decisão do presidente da escola de samba]. Sobretudo, se o presidente tem uma promessa de patrocínio... Mas isso varia muito, sabe? Quando você tem um carnavalesco que tem uma força muito grande na engrenagem das escolas, tipo, o Leandro Vieira, o carnavalesco da Mangueira que revolucionou o desfile em 2019, e que agora está na Imperatriz Leopoldinense. Ele tem a marra de conseguir colocar o tema dele. A marra boa, no caso."
Porém, as dificuldades financeiras frequentemente influenciam a decisão. "O que acontece normalmente na escola de samba é ter alguma dificuldade financeira depois do carnaval. Como ela não tem aquele capital circulante, ela não tem capital de giro, ela precisa se capitalizar. Então, elas se comprometem. 'Olha, eu vou te dar aqui um patrocínio de R$ 2 milhões em maio para você falar do iogurte'. E as escolas de samba acabam fazendo um enredo sobre o iogurte...", exemplifica Fabato.
Simas acrescenta que o processo se tornou mais complexo ao longo do tempo: "No passado, o carnavalesco propunha o enredo. O que a gente entende como sinopse era algo muito mais simples, diga-se de passagem. Como esse processo foi se transformando, essa dinâmica ficou mais complexa e passou a contar com outros personagens. Por exemplo, a figura do pesquisador, a figura do sujeito que escreve a sinopse."
Enredo ganha ou perde carnaval?
Para os autores, o enredo é decisivo. Fabato afirma: "Sim, mas o jogo é jogado na avenida. O enredo pode jogar fora um desfile, como também um grande enredo deixa a comunidade feliz. Você percebe de cara que a comunidade se encanta com aquilo, que vai abraçar o enredo. Uma escolha certeira ajuda muito no processo."
Simas vai além: "O enredo é um quesito que tem transversalidade. Ele contamina todos os outros. Um bom enredo abre possibilidades para ter um trabalho plástico, por exemplo, de melhor qualidade. Pode condicionar a criação de um samba mais consistente. É muito mais fácil compor o samba quando há um enredo bom. Se você faz um samba mais consistente isso favorece a sua harmonia... Ter um bom enredo é meio caminho andado."
A pedagogia dos enredos
Os enredos das escolas de samba têm um papel educativo importante. Simas é enfático: "Aprendemos, é evidente que aprendemos. Aprendemos histórias que uma certa grande história oficial não contava, não contou e hoje começa a contar, né? As escolas de samba têm um papel pedagógico, de pedagogia das massas. Então, a escola de samba acabou cumprindo um papel que muitas vezes a escola institucional não cumpria."
Ele cita exemplos marcantes: "Quando você pensa que o Salgueiro trouxe Quilombo dos Palmares, em 1960, e Zumbi dos Palmares não era um personagem falado em sala de aula. O próprio Salgueiro trouxe Xica da Silva [em 1963]. Ela não era uma personagem falada em sala de aula. A Viradouro trouxe 'Teresa de Benguela, uma Rainha Negra no Pantanal', ela não era uma personagem falada em sala de aula. O enredo que o Leandro Vieira propôs para Mangueira no Carnaval de 2019, [História para ninar gente grande] responde essa questão. As escolas de samba muitas vezes operaram na dimensão da contranarrativa oficial."
Fabato finaliza com uma reflexão poética: "O grande lustre da história tem alguns dos seus penduricalhos apagados. A escola de samba consegue iluminar esses penduricalhos. E a escola de samba ensina a partir de uma lógica de afeto, com o congraçar das artes. Em um desfile de escola de samba, tem percussão, canto, dança, pintura, escultura. Tem a criação e o trabalho do vidraceiro, do costureiro, do carpinteiro. Há formas infinitas de arte para contar aquela história. O enredo é uma linguagem muito brasileira e muito bem feita. Uma forma que o Brasil inventou para celebrar os seus e celebrar suas histórias."

