A desestatização da Sabesp, concluída em julho de 2024, trouxe mudanças significativas no setor de saneamento paulista que contrariam muitas previsões pessimistas. Logo após a privatização, as tarifas de água apresentaram redução imediata: 10% para as categorias social e vulnerável, 1% para residencial normal e 0,5% para comercial e industrial. Essa queda fez da Sabesp a única concessionária do Brasil a reduzir tarifas em 2024, segundo levantamento da Global Water Intelligence (GWI), enquanto outras cidades registravam aumentos entre 4% e 10%.

O modelo regulatório pós-privatização estabeleceu mecanismos que garantem tarifas menores do que as previstas no cenário estatal. A revisão aprovada pela Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) determinou que, em 2026, a tarifa residencial será de R$ 6,40/m³ nas 371 cidades atendidas pela empresa. Caso a Sabesp ainda fosse estatal, esse valor seria de R$ 7,36/m³ - uma diferença de 15% a favor do modelo privatizado.

Controle tarifário e investimentos recorde

Publicidade
Publicidade

Um dos pilares do novo modelo é o rigoroso controle sobre como os investimentos impactam as tarifas. A concessionária só pode repassar aos consumidores custos de investimentos já realizados e auditados, garantindo que pague apenas pelo que efetivamente aplicou em melhorias. Outro mecanismo importante é o Fundo de Apoio à Universalização do Saneamento (Fausp), criado com recursos da privatização e alimentado por dividendos da Sabesp, que pode ser usado para abater aumentos tarifários quando necessário.

Esses mecanismos permitiram um aumento expressivo nos investimentos sem pressionar o bolso dos usuários. De janeiro a setembro de 2025, a Sabesp aplicou R$ 10,4 bilhões em ampliação e melhoria da infraestrutura - um crescimento de 151% em relação ao mesmo período do ano anterior. Desde julho de 2024, o total investido já chega a aproximadamente R$ 15 bilhões.

Ampliação de benefícios sociais

A desestatização também trouxe avanços na inclusão social. O número de famílias beneficiadas pelas tarifas social e vulnerável cresceu 90% no primeiro ano após a privatização, saltando de 991 mil para 1,8 milhão de unidades consumidoras. Para essas famílias de baixa renda, os descontos podem chegar a 78% em relação à tarifa convencional, facilitando o acesso a serviços essenciais de água e esgoto.

Aceleração da universalização

O compromisso assumido com a desestatização prevê investimentos totais de R$ 70 bilhões para viabilizar a universalização do saneamento até 2029 - quatro anos antes do prazo estabelecido pelo Novo Marco Legal do Saneamento. Mais da metade desse valor já foi contratado, e os resultados começam a aparecer: até outubro de 2025, 616 mil novos domicílios passaram a receber água potável, 733,8 mil foram conectados à rede de esgoto e 948,9 mil unidades foram contempladas com tratamento de esgoto.

Essa aceleração na universalização terá impactos ambientais significativos, evitando o descarte inadequado de 3,8 bilhões de litros de esgoto - volume equivalente a 1,5 milhão de piscinas olímpicas. A meta inclui atender áreas rurais e comunidades informais passíveis de regularização, ampliando o alcance dos serviços para populações historicamente negligenciadas.

Perspectivas para os próximos anos

A partir de janeiro de 2026, as tarifas sofrerão apenas reposição do IPCA acumulado entre julho de 2024 e outubro de 2025 (6,11%), sem aumento real para os consumidores. A decisão da Arsesp considerou o novo contrato assinado com a privatização, que estabelece mecanismos permanentes de garantia da estabilidade tarifária até o alcance da universalização em 2029.

O modelo demonstra que é possível conciliar investimentos massivos em infraestrutura com tarifas acessíveis e ampliação de benefícios sociais, desmistificando a ideia de que privatização necessariamente significa aumento de preços para o consumidor final.