A vida em Havana, capital de Cuba, tornou-se um desafio diário para seus habitantes. Com o endurecimento do bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos (EUA) a partir do final de janeiro deste ano, cubanos relatam que o país vive o "pior momento", com dificuldades que se intensificaram nas últimas semanas. O aumento dos apagões, a elevação dos preços de produtos básicos, a redução do transporte público e da oferta da cesta básica alimentar subsidiada pelo Estado são alguns dos problemas que pioraram, afetando diretamente o cotidiano da população.

A arquiteta Ivón B. Rivas Martinez, de 40 anos, mãe solo de um filho de 9 anos, afirmou à Agência Brasil que os apagões em Havana, antes programados, se tornaram imprevisíveis e com maior duração. "Antes, havia cerca de quatro horas sem energia por dia na capital, depois aumentou para cinco horas. Com o agravamento da crise, esse tipo de planejamento não é mais possível. Ninguém sabe quantas horas podem ser. Hoje houve 12 horas de apagão", diz a cubana. A situação é ainda mais grave nas províncias do interior da ilha de quase 11 milhões de habitantes, onde os apagões podem durar quase o dia todo.

No final de janeiro, o governo Donald Trump ameaçou com tarifas os países que vendessem petróleo para a nação caribenha e classificou Cuba como "ameaça incomum e extraordinária" à segurança dos EUA, citando, como justificativa, o alinhamento político de Havana com Rússia, China e Irã. Com cerca de 80% da energia do país gerada por termelétricas, alimentadas por combustíveis, a nova medida reduziu a possibilidade de compra de petróleo no mercado global, agravada pelo bloqueio naval dos EUA à Venezuela a partir do final de 2025.

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Segundo Ivón Rivas, os apagões afetam todos os serviços de Havana, tanto de água, porque as bombas param de funcionar, quanto de telefonia e internet. "Quando você tenta sacar dinheiro no banco, se não há eletricidade, os caixas eletrônicos não funcionam. Se você precisa realizar algum tipo de procedimento legal e o cartório não tem energia, eles não conseguem trabalhar. É muito difícil", completa. Após o endurecimento do embargo energético, a arquiteta observou um aumento mais intenso dos preços de itens básicos de consumo, como arroz, óleo e carne de frango.

O economista cubano aposentado Feliz Jorge Thompson Brown, de 71 anos, tio de Ivón, avalia que o atual momento é o período mais difícil de Cuba, até mesmo que a década de 1990, chamada de "período especial", quando a queda do bloco socialista liderado pela União Soviética privou Cuba dos principais parceiros comerciais. "Este é o momento mais difícil que o país já enfrentou. A situação energética é muito grave. É [o momento] mais cruel e severo do que durante o período especial, tanto material, quanto espiritualmente mais desafiador", diz o também morador de Havana.

Diferentemente da crise atual, Feliz Jorge argumenta que, na década de 1990, havia uma juventude que conhecia os avanços sociais da Cuba revolucionária, o que facilitava enfrentar as dificuldades daquela época. Além disso, ele aponta que o Estado tem perdido capacidade, em comparação com a década de 1990, de fornecer a cesta básica de alimentos subsidiada, o que torna a situação ainda mais complexa.

Uma das principais consequências do endurecimento do embargo, segundo percebido por Ivón e Feliz, foi a diminuição na oferta de transporte público e o encarecimento do transporte privado, reduzindo a mobilidade em Havana. Enquanto o transporte privado encareceu a ponto de se tornar inviável para muitos cubanos, o transporte público está com linhas reduzidas, oferecendo apenas uma viagem pela manhã e outra à tarde em algumas rotas.

A crise energética também tem agravado o acesso aos medicamentos e à saúde pública. Ivón Rivas lembra que os médicos têm dificuldade de se locomover, resultando no cancelamento de consultas e na priorização do atendimento de emergência. A falta de medicamentos afeta toda a sociedade, com impactos inclusive na saúde mental da população.

Apesar das dificuldades, os cubanos entrevistados avaliam que a educação vem conseguindo ser mantida, com crianças estudando perto de casa. O acesso à cultura também tem sido possível, como no caso do filho de Ivón, Robin, de 9 anos, que segue matriculado em uma aula de música gratuita próxima da sua residência.

Para a arquiteta Ivón Rivas, a política dos EUA não deve conseguir atingir seu objetivo de mudança de regime político na ilha. "O cubano acorda e só pensa em garantir comida para sua família. Os jovens que estão insatisfeitos têm outras aspirações. O que eles querem é emigrar. Não vejo nenhuma campanha ou ninguém nas ruas protestando", diz. Já o economista Feliz Thompson ressalta que Cuba incomoda os EUA por seguir um modelo político e econômico alternativo, e que o bloqueio é visto como desumano e cruel pela população.

O aperto do cerco econômico a Cuba é mais uma tentativa dos EUA de derrubar o governo liderado pelo Partido Comunista, que desafia a hegemonia política de Washington na América Latina há mais de seis décadas. Para o governo cubano, a nova medida é uma política "genocida" que busca privar o povo cubano dos seus meios de subsistência, em um bloqueio que já dura 66 anos.