Um marco histórico para a cultura brasileira foi celebrado nesta segunda-feira (26), com a reincorporação oficial de 666 obras de 135 artistas afro-brasileiros ao patrimônio nacional. Considerada a maior coleção de arte afro-brasileira já repatriada ao Brasil, o conjunto chegou fisicamente ao país no dia 12 de janeiro e agora encontra seu lar definitivo no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), em Salvador, na Bahia.
A repatriação foi possível graças a uma doação internacional do acervo Con/Vida, organizado pelas colecionadoras norte-americanas Bárbara Cervenka e Marion Jackson. A iniciativa contou com o apoio fundamental do Ministério da Cultura (MinC), que viabilizou o processo de retorno das obras ao seu país de origem. A exposição desse rico material ao público está prevista para o início de março, quando os visitantes poderão conhecer de perto esse tesouro cultural.
O acervo é um verdadeiro panorama de três décadas de produção artística afro-brasileira, reunindo uma diversidade impressionante de técnicas e expressões. Entre as peças, encontram-se pinturas, esculturas, fotografias, gravuras, xilogravuras, arte sacra, objetos rituais, estampas e outras tipologias que retratam a riqueza e a complexidade dessa cultura. A lista de artistas incluídos é um quem é quem da produção nacional, com nomes fundamentais como J. Cunha, Babalu, Goya Lopes, Zé Adário, Lena da Bahia, Raimundo Bida, Sol Bahia e Manoel Bonfim, entre muitos outros.
Durante a cerimônia de reintegração, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, emocionou-se ao destacar o significado profundo desse retorno. "Esses bens culturais retornam como objetos artísticos e como testemunhos vivos da memória afro-brasileira, reforçando a dignidade, a identidade e o pertencimento cultural do povo brasileiro", afirmou. Para ela, a repatriação simboliza um reencontro do Brasil com sua própria história, um passo importante no reconhecimento e na valorização das raízes africanas que moldaram a identidade nacional.
Com a incorporação desse novo conjunto, o Muncab se consolida como uma das instituições mais importantes do país na preservação e difusão da arte afro-brasileira, abrigando agora uma das maiores coleções do gênero. Jamile Coelho, diretora do museu, ressaltou o caráter simbólico e reparatório da devolução. "Trata-se de uma devolução de profundo valor simbólico e histórico. Essa coleção deixou o Brasil legalmente e retorna por decisão consciente das colecionadoras, que reconheceram a importância de seu retorno à origem", explicou.
Coelho ainda complementou que o acervo fortalece a missão do museu de contar a história do Brasil a partir de perspectivas democráticas, inclusivas e plurais. A devolução, segundo ela, traz a perspectiva concreta de ampliar o conhecimento sobre a produção cultural brasileira, seus bens culturais e o direito à memória e à reparação histórica, temas centrais para a construção de uma sociedade mais justa e consciente de suas origens.
A repatriação dessa coleção se conecta com outras iniciativas recentes de valorização da cultura afro-brasileira, como a doação de um acervo documental sobre o tema ao Arquivo Nacional, projetos que retratam as múltiplas religiosidades do povo afro-brasileiro e até a atualização de ervateiras para atender a novas tradições religiosas. Juntas, essas ações formam um movimento crescente de reconhecimento, preservação e celebração de uma herança cultural que é, definitivamente, um dos pilares do Brasil.

