O carnaval carioca de 2026 promete ser um verdadeiro livro de história aberto na avenida. Das 12 escolas de samba do Grupo Especial que desfilarão no Sambódromo, oito terão enredos biográficos, contando a vida e a obra de personalidades brasileiras de diversas áreas. A informação foi confirmada pela Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), que também divulgou o calendário dos ensaios técnicos para o próximo ano.
Entre os homenageados, estão nomes icônicos da cultura, da política e da resistência negra. A Acadêmicos de Niterói levará para a avenida a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o enredo "Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil". Já a Mocidade Independente de Padre Miguel celebrará a irreverência e o legado da cantora e compositora Rita Lee em "Rita Lee, a Padroeira da Liberdade".
A Unidos da Tijuca vai resgatar a história da escritora Carolina Maria de Jesus, uma das primeiras autoras negras do Brasil, conhecida por seu diário "Quarto de Despejo", que retratava a vida na favela do Canindé, em São Paulo, na década de 1960. A escola Unidos de Vila Isabel homenageará o compositor e pintor Heitor dos Prazeres, figura fundamental no desenvolvimento do samba carioca.
Outras personalidades do mundo artístico também ganharão destaque. A Imperatriz Leopoldinense apresentará o enredo "Camaleônico", sobre o cantor Ney Matogrosso, conhecido por sua voz marcante e performances ousadas. Do universo do próprio samba, a Acadêmicos do Viradouro exaltará a figura do mestre de bateria Moacyr da Silva Pinto, o Mestre Ciça, com o enredo "Pra Cima, Ciça". E a Acadêmicos do Salgueiro contará a "delirante jornada carnavalesca" da carnavalesca Rosa Magalhães, uma das mais premiadas da história.
Forte presença da cultura negra
Além das biografias individuais, o carnaval de 2026 reforçará seu compromisso com o resgate da história e da cultura de origem africana. A Estação Primeira de Mangueira levará para a avenida a história do curandeiro amapaense Raimundo dos Santos Souza, o Mestre Sacaca, com o enredo "Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra". A Portela mergulhará no "Mistério do Príncipe do Bará", contando a trajetória do líder religioso Custódio Joaquim de Almeida, o Príncipe Custódio do Bará.
Outras duas escolas abordarão manifestações religiosas de matriz africana. O Paraíso do Tuiuti apresentará "Lonã Ifá Lukumi", enredo sobre a religião afro-cubana Santeria. E a Beija-Flor de Nilópolis celebrará o "Bembé do Mercado", uma importante festa religiosa do Recôncavo Baiano que ocorre em Santo Amaro, na Bahia, reunindo elementos do candomblé e da cultura popular.
Manguebeat na avenida
Completando o quadro de enredos, a Acadêmicos do Grande Rio fará uma homenagem ao movimento musical Manguebeat, surgido no Recife na década de 1990. Com o enredo "A Nação do Mangue", a escola da Baixada Fluminense promete levar para a Sapucaí a energia contracultural de Chico Science & Nação Zumbi e outros artistas que revolucionaram a cena musical brasileira.
Função pedagógica e memória
Para o sociólogo Rodrigo Reduzino, que pesquisa "os enredos da liberdade" em sua tese de doutorado, essa escolha temática não é casual. "Essa expertise de refletir sobre a realidade e trazer o que a oficialidade não fala foi o que originou as escolas de samba, com enunciado político, desde 1928", afirma, referindo-se ao ano da criação da primeira escola, a Deixa Falar, no bairro do Estácio.
Reduzino destaca que ainda na década de 1930, cerca de 45 anos após a Abolição da Escravatura (1888), as escolas de samba já tratavam de questões raciais em seus enredos. "Ao laurear figuras com trajetórias disruptivas, resgatar pessoas ignoradas e recontar acontecimentos esquecidos, os enredos cumprem funções pedagógicas e memoriais", explica.
A historiadora Nathalia Sarro, diretora do departamento cultural da Unidos de Vila Isabel, complementa: "Os enredos das escolas de samba educam, geram identidades e mobilizam sentimentos. A principal função do enredo é emocionar. E o que emociona, o que toca a gente, transforma".
Novo formato e mais jurados
O carnaval de 2026 seguirá o formato implementado em 2025, com os desfiles do Grupo Especial ocorrendo durante três dias: de domingo, 15 de fevereiro, a terça-feira, 17 de fevereiro. Até 1983, as apresentações ocorriam em um único dia. De 1984 a 2024, já no Sambódromo, os desfiles passaram a ser divididos em dois dias, geralmente domingo e segunda-feira.
Outra novidade para 2026 é o aumento no número de jurados. Os desfiles terão 18 jurados a mais em relação aos anos anteriores, totalizando 54 profissionais avaliando quesitos como bateria, harmonia, evolução, enredo, alegorias e fantasias.
Ensaios técnicos
Os fãs do carnaval poderão ter uma prévia dos desfiles nos ensaios técnicos gratuitos que acontecerão no Sambódromo no final de janeiro e começo de fevereiro. A programação inclui:
Dia 30/1, a partir das 21h: Acadêmicos de Niterói, Mocidade Independente de Padre Miguel, Estação Primeira de Mangueira e Unidos da Tijuca.
Dia 31/1, a partir das 20h: Unidos de Vila Isabel, Acadêmicos do Salgueiro, Paraíso do Tuiuti e Portela.
Dia 1/2, a partir das 19h: Acadêmicos do Viradouro, Imperatriz Leopoldinense, Acadêmicos do Grande Rio e Beija-Flor de Nilópolis.
Os ensaios se repetem nos dias 6, 7 e 8 de fevereiro, com os mesmos horários e agrupamentos de escolas.
Enquanto o Rio se prepara para esse carnaval repleto de histórias, outro importante evento carnavalesco do país recebeu reconhecimento oficial: o Carnaval de Salvador foi recentemente reconhecido como manifestação cultural do Brasil, reforçando a importância das festas de momo para a identidade nacional.

