A captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e da primeira-dama, Cilia Flores, por forças dos Estados Unidos na madrugada de sábado (3) desencadeou uma onda de manifestações em diversas cidades do mundo durante todo o fim de semana. A operação militar, que levou os dois para serem julgados em território americano por suposto envolvimento com o tráfico internacional de drogas, foi recebida com reações polarizadas tanto dentro quanto fora da Venezuela.
O governo dos Estados Unidos anunciou que pretende administrar a Venezuela "até que se possa realizar uma transição segura, adequada e criteriosa". Em declaração adicional, o presidente americano, Donald Trump, afirmou que empresas dos Estados Unidos passarão a controlar o setor de petróleo do país, que possui as maiores reservas confirmadas de óleo e gás do mundo.
Enquanto isso, o Supremo Tribunal de Justiça da Venezuela (TSJ) decidiu que a vice-presidente executiva Delcy Rodríguez deverá assumir a presidência interina do país, criando um cenário de disputa pelo poder. O Conselho de Segurança da ONU marcou uma reunião para segunda-feira para discutir a situação, e o papa Francisco se pronunciou defendendo o bem-estar do povo venezuelano e a soberania do país.
Nas ruas de diversas capitais, venezuelanos que migraram para outros países em busca de melhores condições de vida expressaram sentimentos contraditórios. Segundo a agência Reuters, houve atos comemorando a ação dos Estados Unidos em cidades como Bogotá, Lima, Quito e Madrid. Na Cidade do México, venezuelanos e mexicanos organizaram manifestações tanto a favor quanto contra a intervenção militar norte-americana, com a polícia precisando intervir para evitar o aumento da tensão entre os grupos.
Em Buenos Aires, na Argentina, movimentos sociais e venezuelanos contrários à ação protestaram em frente à embaixada dos Estados Unidos, enquanto outro grupo se reuniu no Obelisco para celebrar a captura de Maduro. Nos próprios Estados Unidos, houve protestos contra o ataque em cidades como São Francisco e Nova York, além de registros de grupos de venezuelanos que apoiaram a operação.
A diáspora venezuelana em números e sentimentos
Cerca de 20% da população da Venezuela deixou o país desde 2014, de acordo com dados da plataforma R4V, um grupo de ONGs regionais que prestam assistência a migrantes e refugiados venezuelanos, criada pela agência de migração da ONU. Os principais destinos foram a Colômbia, que recebeu 2,8 milhões de venezuelanos, e o Peru, que recebeu 1,7 milhão.
Há três anos na Espanha, país que recebeu 400 mil venezuelanos, Andrés Losada expressou à Reuters o conflito interno que vive: "Embora o que as pessoas estejam passando em Caracas seja difícil, acredito que, além disso, há uma luz que nos levará à liberdade". Em Quito, capital do Equador, a venezuelana Maria Fernanda Monsilva disse esperar que Edmundo González, o principal candidato da oposição venezuelana na eleição presidencial de 2024, possa assumir o poder. "Muitos de nós que estamos no exterior queremos voltar", afirmou.
Reações dentro da Venezuela
Em Caracas, capital venezuelana e cidade que foi alvo direto do ataque, uma manifestação repudiou a intervenção americana. O venezuelano José Hernandez, que participou do protesto, classificou a operação como criminosa: "Os outros países do mundo precisam ter muita clareza sobre o modo completamente criminoso com que os Estados Unidos estão agindo. Isso é extrair, ou melhor, roubar recursos de outros países que têm energia e minérios".
O cenário que se desenha combina a complexidade geopolítica com o drama humano de milhões de venezuelanos que vivem no exterior, divididos entre a esperança de mudança e o temor de novas intervenções estrangeiras em seu país de origem. Enquanto autoridades internacionais se preparam para discutir o caso na ONU, as ruas ao redor do mundo continuam ecoando os sentimentos contraditórios de uma nação profundamente dividida.

