Um calango gigante, em cores vibrantes de verde, amarelo e vermelho, tomou conta da Asa Norte, em Brasília, na manhã desta terça-feira (17), em mais uma edição do tradicional bloco Calango Careta. Diferente dos grandes blocos do Distrito Federal que ocupam áreas como o Eixo Monumental, o cortejo serpenteia entre prédios residenciais promovendo um "carnaval de vizinhança" que já é marca registrada desde 2015.
A alegoria do animal típico do Cerrado, erguida e articulada por bambus nos moldes do dragão do bloco pernambucano Eu Acho é Pouco, de Olinda, representa mais do que folia: é um símbolo de coletividade e preservação ambiental. Acompanhando o calango, um enorme boneco de saruê - muitas vezes confundido com um roedor - carrega a mensagem de proteção ao bioma cerrado.
O homem por trás do saruê
Gabriel Ballarini, educador social e bonequeiro voluntário, é quem dá vida à alegoria do saruê. "Basicamente, tenho que acenar para a galera e pular. Pesa um pouco, tem uns quatro quilos. Mas, estou me sentindo muito orgulhoso hoje", conta ele, enquanto anima os foliões sob a estrutura do bonecão.
O sucesso do saruê foi imediato, especialmente com o pequeno Rui, de 1 ano e quatro meses, fantasiado de capivara - outro animal típico do Cerrado. Seu pai, Pedro Tarcísio, designer de produtos, explica: "Este é o nosso bloco favorito. Mostrar os instrumentos, os animais o deixam muito apaixonado por tudo isso".
Estética psicodélica e homenagens cinematográficas
A estética do Calango Careta é uma mistura única de cultura popular e psicodelia. Artistas com grandes asas, pernas de pau, palhaços, acrobatas mascarados e outros personagens circenses guiam o cortejo, criando um visual que mescla tradição e contemporaneidade.
Vanessa Cândida Rezende, apoiadora do grupo há um ano, chegou ao gramado com girassóis e um regador que despeja glitter nos foliões. "Tenho glitter no corpo, em casa, em todos os cantos. Essa é a alegria do carnaval que levaremos para o resto do ano", diverte-se.
As referências culturais vão além do visual. Enquanto em 2025 as homenagens se voltavam ao filme Ainda Estou Aqui, da atriz Fernanda Torres, em 2026 as fantasias remetem à produção brasileira O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho. O casal Ana Chalub, jornalista, e Luiz Bragança, músico, incorporaram personagens do filme: ela como Dona Sebastiana (interpretada por Tânia Maria) e ele como um orelhão dos anos 1970.
"O início já ocorre em um dia de carnaval e a gente achou que tinha tudo a ver com o momento político e por ser super favorável ao filme", explica Ana Chalub sobre a escolha da fantasia.
Sonoridade que une gerações
Sob as copas das árvores da Asa Norte, a Orquestra Camaleônica comanda o ritmo com trompetes, trombones, saxofones e percussão potente. No repertório, ciranda, frevo, maracatu e hits da MPB se misturam, com canções como Lucro, do BaianaSystem, e Frevo Mulher, de Zé Ramalho, já consagradas como clássicos do bloco.
A interação próxima entre músicos e público é uma das características do Calango Careta. Não há cordas ou abadás separando os foliões. Mariana Junqueira Marini, de 15 anos, fantasiada de personagem do desenho Backyardigans, conta: "Minha mãe sempre me levou para o carnaval, mas eu não curtia muito. Agora, gosto mais porque venho com minhas amigas".
Folia sem limite de idade
O Calango Careta reúne em um mesmo espaço crianças, jovens, adultos e idosos. Gabriela Barcellos, fisioterapeuta grávida de 8 meses, participou pela primeira vez e já planeja criar o filho curtindo o carnaval. "Aqui em Brasília, a cultura do carnaval tem aumentado bastante", observa.
Mara Carvalho, aposentada de 75 anos, é veterana no bloco. Ela trouxe filha, genro e neto para manter viva a tradição familiar. "Desde pequenininha, eu gosto muito de carnaval. Minha mãe, minha irmã, meu irmão, todo mundo brincava", recorda. Sua folia não terminou no Calango Careta - ela ainda pretendia curtir o bloco Pacotão, famoso por suas sátiras políticas.
De bloco a movimento cultural
O Calango Careta transcendeu a condição de bloco carnavalesco para se tornar um movimento cultural em Brasília. Desde 2015, mantém a tradição de divulgar o local de saída apenas horas antes do cortejo, criando expectativa entre os foliões.
O impacto cultural é tão significativo que inspirou até fábulas escolares, como A Fábula do Calango Careta ou a Folia de Mil Dias, usada em escolas da Asa Norte para ensinar sobre cultura popular, pertencimento e ocupação pública.
Na sexta-feira (20), o Cine Brasília exibirá em sessão única o documentário Calango Careta: 10 Anos de Eterno Carnaval, que conta a história do grupo de amigos que construiu o calango gigante e transformou uma brincadeira em tradição. O bloco que começou como uma iniciativa local hoje é um dos ícones do carnaval de rua brasiliense, provando que a capital federal não deixa a desejar quando o assunto é folia.
Como resume Ana Bastos, analista de sistemas que há 19 anos reside em Brasília e trouxe a filha Helena para curtir a festa: "Os bloquinhos são uma delícia, há animação e tranquilidade". Uma avaliação que ecoa entre os milhares de foliões que transformaram o Calango Careta em muito mais que um bloco - em um verdadeiro movimento de celebração da cultura brasileira.

