A grande maioria dos brasileiros é favorável a que os trabalhadores tenham, no mínimo, dois dias de descanso por semana. É o que revela uma pesquisa da Nexus - Pesquisa e Inteligência de Dados, realizada em todas as 27 unidades da Federação entre os dias 30 de janeiro e 5 de fevereiro. Segundo o levantamento, 84% dos entrevistados apoiam essa ideia. O estudo ouviu 2.021 cidadãos com 16 anos ou mais.

O apoio ao fim da escala 6x1, que prevê seis dias de trabalho e um de folga, também é expressivo: 73% dos brasileiros são favoráveis, desde que não haja redução de salário. No entanto, quando a possibilidade de corte na remuneração entra em cena, o cenário muda drasticamente. Apenas 28% continuariam apoiando a medida se houver diminuição do pagamento. Outros 40% só são favoráveis se a aprovação não implicar em redução salarial.

O CEO da Nexus, Marcelo Tokarski, explicou à Agência Brasil que a discussão no Congresso Nacional deve girar em torno da redução da jornada, com ou sem diminuição da remuneração. "As empresas defendem que a jornada não seja reduzida, mas, se houver redução, é com diminuição do salário. E os trabalhadores, de maneira geral, não topam uma redução de jornada com redução de salário", afirmou Tokarski.

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Segundo ele, a pesquisa joga luz sobre um dilema real no país: "Quem não quer ter folga a mais? Todo mundo quer. Agora, quando a gente coloca que você vai trabalhar um dia menos, mas vai ganhar menos, o cara não quer porque tem conta para pagar". Tokarski avalia que, em um país de renda média baixa e trabalho precarizado, pouca gente aceita ter uma folga extra se o salário diminuir.

A pesquisa também mostrou que 62% dos entrevistados sabem que há uma proposta em debate no governo federal e no Congresso para acabar com a escala 6x1. Desses, apenas 12% afirmam conhecer bem o assunto, enquanto 50% dizem conhecer "mais ou menos". Um terço da população (35%) nunca ouviu falar do tema.

O apoio à medida varia conforme o voto na última eleição presidencial. Entre quem votou no presidente Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno de 2022, 71% são favoráveis ao projeto de lei que propõe o fim da escala 6x1. Já entre os eleitores de Jair Bolsonaro, 53% apoiam a proposta. Tokarski comenta que é natural que quem votou em Lula tenda a apoiar mais, já que era uma promessa de campanha do atual governo.

O projeto em questão é a PEC 148/2015, aprovada na Comissão de Constituição e Justiça do Senado no dia 10 de dezembro do ano passado. A proposta ainda precisa passar por duas votações no plenário do Senado e duas na Câmara dos Deputados, com voto favorável de pelo menos 49 senadores e 308 deputados.

Se aprovada, o fim da escala 6x1 ocorrerá de forma gradual. No primeiro ano, as regras atuais seriam mantidas. No ano seguinte, o número de descansos semanais subiria de um para dois. Atualmente, a jornada máxima semanal é de 44 horas, mas a partir de 2027 poderá cair para 40 horas. O teto final será de 36 horas por semana a partir de 2031. Um ponto crucial que ainda será votado pelo Congresso é se os empregadores poderão ou não reduzir a remuneração para compensar o novo tempo de descanso.

Quando questionados sobre a chance de aprovação da proposta, 52% dos entrevistados acreditam que ela será aprovada pelo Congresso, enquanto 35% acham que não. Apenas 12% afirmam entender bem os detalhes da PEC.

A pesquisa da Nexus reforça um desejo quase unânime por mais descanso, mas evidencia o receio dos brasileiros em relação ao bolso. Como resume Tokarski: "Não dá para trabalhar seis dias e folgar um só. Essa é a grande questão". O debate agora segue no Congresso, onde deputados e senadores terão que equilibrar o anseio por mais qualidade de vida com a realidade econômica do país.