O carnaval do Rio de Janeiro, conhecido mundialmente por sua grandiosidade e alegria, ganha cada vez mais cores e significados através de blocos que transformam a festa em plataforma de inclusão e resistência. O movimento, que começou como resposta ao preconceito, hoje forma um ecossistema cultural vibrante, com agremiações que celebram a diversidade enquanto promovem ações sociais e ambientais.

Um dos exemplos mais emblemáticos é o bloco Sai, Hétero, nascido em 2018 a partir de uma brincadeira de carnaval que se tornou resposta ao preconceito contra a comunidade LGBTQIA+. "Hoje, ele é um projeto cultural, consolidado no carnaval do Rio e que recebe mensagens de gente de Roma, Paris, da galera de Manaus vindo para o Rio de Janeiro e querendo saber a data do desfile para se programar", conta o fundador e presidente do bloco, Vitor Ribeiro. O nome provocativo já indica seu propósito: criar espaço seguro para pessoas LGBT+.

No próximo dia 24, o Sai, Hétero fará seu primeiro "esquenta" oficial do carnaval de rua na Marina da Glória, dentro do Parque do Flamengo. "É um evento bloco, com fantasia livre", disse Ribeiro. Já a celebração principal do carnaval 2026 ocorrerá no dia 17 de fevereiro, em local ainda a ser definido, sempre fora da programação oficial da prefeitura. "A gente prefere fazer um evento fechado por motivos de segurança porque, no carnaval, as pessoas ficam muito expostas e acontecem muitos acidentes em eventos abertos", explicou o fundador.

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Com público estimado entre 10 mil e 20 mil pessoas, o bloco realiza eventos sempre na região central da cidade e conta com camarotes, open bar, diversas atrações e até a bateria da Escola de Samba Unidos da Tijuca. Os participantes apostam que o centro do Rio "vai ferver no ritmo do carnaval mais colorido, diverso e animado da cidade".

Outra agremiação que merece destaque é o Divinas Tretas, parte do ecossistema cultural Carnabendita que conecta 13 blocos de rua no Rio. Surgido como uma nova formação do antigo bloco Toco-Xona (primeiro bloco LGBTQIA+ do Rio, criado em 2007), o Divinas Tretas mudou de nome em 2022 para abarcar ainda mais diversidade e se firmar como coletivo no pós-pandemia. Misturando pop, rock, axé e ritmos brasileiros, consolidou-se como símbolo de pluralidade e qualidade musical.

Para o carnaval 2026, marcado para 15 de fevereiro na Praia do Flamengo, o bloco inclui uma iniciativa inédita: requalificação e retificação de prenome e gênero para população trans e não-binária em situação de vulnerabilidade. "Como o Divinas Tretas é hoje o nosso principal pilar LGBTQIA+, decidimos concentrar esses esforços no bloco para garantir que o carnaval seja, além de festa, um instrumento de justiça social", disse a diretora do Carnabendita, Natália Guimarães.

O bloco contará com espaço reservado e gradeado, segurança, equipe de apoio treinada, intérprete de libras, sanitários inclusivos e articulação com a Riotur para que banheiros públicos adotem padrões similares. Durante intervalos musicais, promoverá campanha de combate à violência contra a mulher com divulgação do número 180, QR Codes para acesso à Lei Maria da Penha e distribuição de preservativos. Além disso, o Carnabendita adotará contratação prioritária de profissionais LGBTQIA+, trans e não-binários em todo o desfile.

Nem todos os blocos com nomes sugestivos são exclusivamente LGBTQIA+. É o caso do Enxota Que Eu Vou, cuja presidente Camila Mendes esclarece: "Nós não somos um bloco exclusivo LGBTQIA+. O nome dá a entender isso, às vezes. A gente se considera um bloco de todos, diverso e aberto a todos os gêneros". Criado em 2010 por um grupo de amigos universitários da UFRJ que eram "enxotados" dos lugares por serem os últimos a ir embora, o bloco tem foco em sambas-enredo clássicos das escolas de samba do Rio.

No carnaval 2026, o Enxota Que Eu Vou comemora 15 anos na Praça Tiradentes, com concentração às 13h do dia 17 de fevereiro. Sua bateria, batizada Bateria Penetrante, tem participantes LGBTQIA+ e rainha Wallace Terra, drag queen cujo nome artístico é WQueer. "Neste carnaval, a gente vai trazer os sambas que mais tocamos nesses 15 anos, que fizeram sucesso, mas também trazendo sambas antigos", planeja Camila.

A Banda das Quengas, uma das mais antigas bandas carnavalescas LGBTQIA+ do Rio, completa 35 anos no dia 13 de fevereiro, mas comemorará na terça-feira (17) na esquina da Rua Washington Luiz com Avenida Mem de Sá, na Lapa. Devido ao grande contingente que atrai - 47 mil pessoas no ano retrasado - a banda não sai mais, ficando parada no local. "Nossa banda é imprevisível. Ela pega multidões. É a banda LGBT da diversidade que atrai não só os que estão com a gente, mas os afins também", assegura o vice-presidente Tbengston Martins.

A temática do carnaval 2026 é a mesma dos últimos oito anos: Aceitem ou nos respeitem. "Ninguém é obrigado a aceitar, mas respeitar, com certeza é", reforça Martins. A fantasia é livre, já que a produção de abadás ficou muito cara no passado.

Completando o cenário diverso, o bloco Sereias da Guanabara também sai no dia 17 de fevereiro, com concentração às 14h no Aterro do Flamengo. Famoso por suas fantasias com temática marinha, o bloco tem como foco o tripé sustentabilidade, acessibilidade e diversidade. "Essa é sempre uma marca do nosso bloco. De cima do trio elétrico a gente vê muito azul, verde-água. A galera compra legal essa ideia do universo marinho", destaca um dos fundadores, Leo Solez.

No ano passado, o bloco ganhou o Selo Verde de sustentabilidade. "Para a gente fazer o bloco no Aterro do Flamengo é muito simbólico porque a Praia do Flamengo foi despoluída e está sendo agora muito usada pelos cariocas", explica Solez. Durante a passagem do bloco, os organizadores conscientizam foliões sobre a importância da coleta do lixo, aproveitando a "potência festiva do lixo" com materiais reciclados nas fantasias.

"Tem pessoas trans, pessoas cis, héteros também são bem-vindos. Nos nossos eventos, a gente também preza por acessibilidade, que é um pilar nosso", afirmam Solez e seu sócio Jorge Badaue. O Sereias da Guanabara celebra este ano seu nono aniversário, mantendo viva a fabulação sobre a resistência da Baía de Guanabara, que "apesar de sofrer muito com a poluição, não morre".

Juntos, esses blocos mostram como o carnaval carioca vai além da folia: é espaço de afirmação identitária, plataforma para ações sociais e ambientais, e celebração da pluralidade que define não apenas a festa, mas a própria cidade do Rio de Janeiro. Enquanto tocam seus tambores e levantam suas bandeiras, escrevem uma nova história para o maior carnaval do mundo.