O ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela neste fim de semana provocou reações divergentes entre os países da América Latina, expondo uma profunda divisão regional sobre a questão venezuelana. Enquanto Chile, Colômbia e México condenaram veementemente a ação norte-americana e defenderam o direito internacional, Argentina e Bolívia celebraram ou apoiaram a intervenção, classificando o governo de Nicolás Maduro como uma ditadura e narcoestado.

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, foi um dos primeiros a se manifestar, afirmando que seu país adota "uma posição orientada para a preservação da paz regional" e fez um apelo para que as partes envolvidas se abstenham de ações que "aprofundem o confronto e priorizem o diálogo e os canais diplomáticos". Em publicação nas redes sociais, Petro reafirmou o compromisso colombiano com os princípios da Carta das Nações Unidas, rejeitando "qualquer ação militar unilateral que possa agravar a situação ou colocar em risco a população civil".

Como ação preventiva, o governo colombiano implementou medidas para proteger civis, preservar a estabilidade na fronteira com a Venezuela e atender a necessidades humanitárias ou migratórias. "Que Bolívar proteja o povo venezuelano e os povos da América Latina", finalizou o presidente, em referência ao libertador Simón Bolívar, figura histórica compartilhada por ambos os países.

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Do Chile, o presidente Gabriel Boric pediu uma resolução pacífica para o que chamou de "crise venezuelana", defendendo que ela seja resolvida "por meio do diálogo e do apoio ao multilateralismo, e não por meio da violência ou da interferência estrangeira". Em publicação no X (antigo Twitter), Boric reafirmou o compromisso chileno com "os princípios fundamentais do direito internacional, como a proibição do uso da força, a não intervenção, a solução pacífica de controvérsias internacionais e a integridade territorial dos Estados".

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, também condenou o ataque militar estadunidense, citando em seu perfil do X o Artigo 2, parágrafo 4 da Carta da Organização das Nações Unidas (ONU): "Os membros da Organização devem abster-se, em suas relações internacionais, da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado ou de qualquer outra forma incompatível com os Propósitos das Nações Unidas".

Em contraste com essas posições, o presidente da Argentina, Javier Milei, em comunicado oficial, disse celebrar "a captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro por parte do governo dos Estados Unidos da América". Milei classificou o papel da Venezuela no continente como "inimigo da liberdade" e fez uma comparação com Cuba dos anos 1960, referindo-se ao embargo econômico que os EUA impõem há mais de 60 anos ao governo cubano.

A Bolívia, por sua vez, divulgou nota por meio do Ministério de Relações Internacionais dizendo que apoia de "maneira firme e imediata" o povo venezuelano no que classificou de "recuperação de sua democracia". O governo do presidente Rodrigo Paz afirmou que "considera inadiável o início de uma transição democrática real que ponha fim ao narcoestado, desmonte os mecanismos de repressão e corrupção e restabeleça a legitimidade institucional conforme a vontade soberana do povo venezuelano".

O ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela marca um novo episódio de intervenções diretas de Washington na América Latina. A última vez que os EUA invadiram um país latino-americano foi em 1989, no Panamá, quando os militares norte-americanos sequestraram o então presidente Manuel Noriega, acusando-o de narcotráfico. Assim como fizeram com Noriega, os Estados Unidos acusam Maduro de liderar um suposto cartel venezuelano De Los Soles, sem apresentar provas concretas - especialistas em tráfico internacional de drogas questionam a existência dessa organização.

O governo de Donald Trump estava oferecendo uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levassem Maduro à prisão. Para críticos da intervenção, a ação representa uma medida geopolítica para afastar a Venezuela de adversários globais dos Estados Unidos - como China e Rússia - além de exercer maior controle sobre o petróleo do país, que possui as maiores reservas de óleo comprovadas do planeta.

A divisão latino-americana reflete diferentes visões sobre soberania, direito internacional e a natureza do governo venezuelano, com alguns países priorizando a não-intervenção e outros defendendo ações mais duras contra o regime de Maduro. A situação continua em desenvolvimento, com impactos potenciais para a estabilidade regional e as relações diplomáticas entre os países do continente.