A Advocacia-Geral da União (AGU) entrou com um pedido de reconsideração nesta quarta-feira (3) ao ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O órgão quer que o magistrado reveja uma decisão que entendeu que somente a Procuradoria-Geral da República (PGR) pode entrar com pedidos de impeachment de integrantes da Corte.

Na manifestação, o advogado-geral da União, Jorge Messias, sustenta que a possibilidade de abertura de processo de impeachment pelo Senado faz parte de uma "relação de equilíbrio" entre os poderes. O texto defende que o sistema constitucional brasileiro prevê um mecanismo de freios e contrapesos que não pode ser ignorado.

"As alegações devem ser acolhidas em parte, como imposição do sistema de garantias institucionais estabelecido na Constituição Federal em favor da independência do Poder Judiciário, arquitetura que não se volta a esconder privilégios, mas a viabilizar a proteção adequada de direitos fundamentais e a plena realização do princípio democrático", disse a AGU em nota oficial.

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A decisão de Gilmar Mendes foi tomada a partir de uma ação protocolada pelo partido Solidariedade e a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB). Os autores da ação buscavam esclarecer quem teria legitimidade para iniciar um processo de impeachment contra ministros do STF.

Após a decisão, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, criticou publicamente a posição do STF. Em declarações à imprensa, Alcolumbre afirmou que a Corte tenta "usurpar" as competências da Casa, referindo-se ao papel constitucional do Senado em processos de impeachment.

O debate envolve uma interpretação delicada da Constituição Federal de 1988. De um lado, há quem defenda que a PGR, como representante do Ministério Público da União, seria a única instituição com legitimidade para iniciar o processo. De outro, argumenta-se que o sistema brasileiro permite que outras instâncias, incluindo o Congresso Nacional, tenham papel ativo nesse mecanismo de controle.

A AGU, na sua manifestação, não questiona a necessidade de proteção da independência do Judiciário, mas sim a interpretação de que isso implicaria na exclusividade da PGR para iniciar processos de impeachment. O órgão sustenta que o equilíbrio entre os poderes é um princípio fundamental da democracia brasileira e que o Senado tem competência constitucional para processar e julgar ministros do STF em casos de crime de responsabilidade.

O pedido de reconsideração agora será analisado por Gilmar Mendes, que poderá manter sua decisão original ou reconsiderá-la parcial ou totalmente. Caso o ministro mantenha o entendimento, a questão poderá seguir para o plenário do STF, onde os onze ministros decidirão de forma definitiva sobre o tema.

Especialistas em direito constitucional acompanham o caso com atenção, pois a decisão final poderá estabelecer um precedente importante sobre os mecanismos de controle e responsabilização de membros do mais alto tribunal do país. O assunto ganha relevância em um contexto de intensos debates sobre a separação de poderes e os limites de atuação de cada instância do Estado brasileiro.