O governo da África do Sul solicitou formalmente uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) para discutir o ataque militar realizado pelos Estados Unidos contra a Venezuela, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa. Em um comunicado oficial divulgado nesta quarta-feira, o país africano classificou a ação como uma violação clara da Carta das Nações Unidas, documento fundador da organização que estabelece os princípios das relações internacionais.
A base da denúncia sul-africana está no artigo 2º da Carta, que determina que todos os Estados-Membros devem abster-se da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer país. "A Carta não autoriza também intervenções militares externas em assuntos que são essencialmente de jurisdição interna de uma nação soberana", reforçou o texto diplomático, deixando claro que a ação unilateral dos EUA é vista como um ato de agressão que fere a soberania venezuelana.
O posicionamento da África do Sul não é isolado. Países da América Latina já se manifestaram sobre o ataque à Venezuela, expressando preocupação com a escalada militar na região. O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, repudiou publicamente os ataques dos Estados Unidos, ecoando um sentimento de solidariedade que tem ganhado força entre nações do Sul Global. Enquanto isso, o ex-presidente norte-americano Donald Trump publicou nas redes sociais uma suposta foto de Maduro em um navio após a captura, alimentando a polêmica internacional.
"A história tem demonstrado repetidamente que invasões militares contra Estados soberanos geram apenas instabilidade e aprofundamento das crises. O uso unilateral e ilegal da força dessa natureza mina a estabilidade da ordem internacional e o princípio da igualdade entre as nações", alertou a nota do governo sul-africano. A declaração reflete um temor amplo de que a ação possa abrir um precedente perigoso para intervenções militares arbitrárias em outros contextos geopolíticos.
O ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela marca um novo e grave episódio de intervenções diretas de Washington na América Latina. A última vez que os EUA invadiram um país latino-americano foi em 1989, no Panamá, quando tropas norte-americanas sequestraram o então presidente Manuel Noriega, acusando-o de envolvimento com o narcotráfico. A semelhança entre os dois casos é notável: assim como fizeram com Noriega, os Estados Unidos acusam Maduro de liderar um suposto cartel venezuelano De Los Soles, sem apresentar provas concretas à comunidade internacional.
Especialistas em tráfico internacional de drogas têm questionado abertamente a existência desse cartel, sugerindo que a acusação pode ser um pretexto para justificar a intervenção militar. O governo de Donald Trump vinha oferecendo uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levassem à prisão de Maduro, um valor recorde que já indicava a prioridade dada ao caso pela administração norte-americana.
Para analistas e críticos da política externa dos EUA, a ação vai muito além das acusações de narcotráfico. Trata-se de uma medida geopolítica estratégica para afastar a Venezuela de adversários globais dos Estados Unidos, como China e Rússia, que têm ampliado sua influência no país sul-americano nos últimos anos. Além disso, a intervenção permitiria aos EUA exercer um controle maior sobre o petróleo venezuelano, um recurso de enorme importância dado que a Venezuela possui as maiores reservas de óleo comprovadas do planeta.
A reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU, solicitada pela África do Sul, deve colocar o caso em discussão no mais alto fórum de segurança internacional. A expectativa é que outros países se somem ao apelo por uma solução diplomática e pelo respeito à soberania nacional, em um momento de tensão que remete aos piores capítulos da Guerra Fria na região. O desfecho desse embate pode definir novos rumos para a ordem mundial e para o princípio da não intervenção, pilar do direito internacional desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

