Bem-vindo ao Planeta Fake!
O Planeta Terra deveria mudar de nome. Tudo aqui é Matrix, por que esta notícia não tem o direito de ser fake?
Guerra e paz...
Ficou até bonito, temos de admitir, mas o buraco (!) é muito mais embaixo!
Sou Jornalista há quarenta anos e já fiz um pouco de tudo nesta área. Minha primeira maquina de escrever foi uma Underwood de ferro maciço, pesava mais que uma bigorna. Se hoje a pesquisa para escrever um artigo é feita na Internet, saiba que eu tinha inclusive uma roupa de "carteiro", para me disfarçar e colher informações anonimamente, quando fazia alguma reportagem investigativa e precisava ir várias vezes a um mesmo lugar para apurar os fatos sem chamar atenção.
Já estive dos dois lados do balcão, redação e assessoria de Imprensa. Já tive a experiência de adular chefes de redação para conseguir um rodapé sobre algo de utilidade pública e, por isso, procuro facilitar o trabalho de quem me envia uma informação, publico rapidamente, ipsis litteris, em respeito ao fato de que o press-release foi redigido por um colega de profissão!
Só que o mundo virou de cabeça pra baixo de verdade, é uma Kombi sem freios descendo a Via Anchieta com vinte passageiros...
Hoje, Século XXI, sinto-me no dever de ensinar um pouco das origens do Jornalismo aos novos Colegas que estão chegando ao mercado, cheios de garra, mas sempre é bom o diálogo entre gerações, para não reinventar a roda, principalmente quando a pauta cai no colo do redator e ele se faz de rogado e não divulga uma mísera linha.
Se você não entende a mecânica da Imprensa, ela deve divulgar informações sobre coisas do interesse do leitor e atrair a atenção deste, de forma que a empresa divulgada retribua a gentileza posteriormente, comprando espaço publicitário no jornal, é assim que o jornal se mantém, mostra a notícia do lançamento de um novo produto, por exemplo, e, sendo de interesse do leitor, ao longo do tempo estampa a propaganda desse produto. Isso é correto. Funcionou assim desde sempre, tinha um contato de redação e outro, comercial.
Um belo dia, começaram a aceitar o maldito jabaculê, aquela sacolinha do Judas Iscariotes e passaram a divulgar apenas o comercial@jornaleco.com, não tem mais contato de redação, apertaram bem forte a tecla dane-se e a imprensa perdeu sua letra maiúscula e virou uma máquina de moer cérebro, que desinforma e deturpa tudo. O resultado é que, quando acontece uma tragédia do tipo Brumadinho (272 mortos e um mar de lama destruindo MG e ES), a sociedade quer explicações da empresa e, aí sim, a assessoria de imprensa, em desespero para apagar o incêndio, oferece canapés e brindes para sair bonita na foto. Só que a relação entre assessores e redatores é de longo prazo, uma parceria que precisa ser construída.
Seu carro passou no teste de segurança ou do alce? Será que você está dirigindo seu caixão?
Você se lembra do episódio da soda cáustica no suco de soja (14 vítimas, sem óbitos)? Ou do banco do carro que amputou o dedo de oito pessoas (recall de 450.000 veículos, obrigado pela Justiça)? Imediatamente, bilhões são gastos em propaganda e a notícia desaparece da imprensa. É assim que você, leitor, é gadificado e considerado cada vez mais apenas um mero consumidor mudo, só tem o direito de engolir e engolir, tem a obrigação de produzir foie gras e morrer para virar iguaria no banquete do clube do Tio Patinhas.
Então, se tiver algum valor este conselho do velho e eterno foca, vamos dar o nosso melhor, em qualquer profissão ou mesmo nos pequenos gestos do cotidiano, é isso que constrói uma sociedade mais livre, justa e humana! Ou...
O último a ser substituído por uma IA, faça o favor de apagar a luz (lembra da Time/Life de Walter Mitty?) e de deixar um pouco de comida para o alce. E um abraço para todos os Fabbris, Brizottis, Baggios, Colceras e Rizzutos Brodowskianos, terra da minha mãe!

