Kennidy de Bortoli, Isabelli Maria Passos de Oliveira e Nayara Leontino Scherpinki não são apenas queijeiros - são artistas, cientistas e contadores de histórias que estão colocando o Paraná no mapa mundial dos queijos finos. Talentos desenvolvidos no Biopark, ecossistema de inovação de Toledo, no Oeste paranaense, eles representam a vanguarda de uma revolução que está transformando o estado em referência nacional na produção de queijos especiais.

A comprovação veio na 4ª edição do Mundial do Queijo do Brasil, realizado em São Paulo, onde o Paraná brilhou com 44 queijos premiados nas categorias principais. Em uma competição que reuniu cerca de 2 mil queijos de mais de 30 países, os paranaenses mostraram que sabem fazer muito mais do que produtos tradicionais - criam experiências sensoriais únicas.

A equipe do Biopark apresentou três queijos com temática espacial que desafiam os limites da queijaria convencional. O primeiro, inspirado em um planeta, trouxe uma técnica inovadora de coloração que simula movimento e sensação térmica gelada na massa. O segundo, com formato irregular de meteoro, explorou notas minerais e de pimenta, simulando o calor da entrada na atmosfera. Já o terceiro, baseado no conceito do buraco negro, utilizou tecnologia de casca lavada com impacto visual e sensorial único no momento do derretimento.

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"Mais do que defender um título ou conquistar medalhas, nosso objetivo é ir além do sabor e criar uma experiência completa. Desenvolvemos queijos que estimulam diferentes sentidos, com variações de textura, temperatura e impacto visual. Quando o consumidor se surpreende em cada etapa da degustação, o produto deixa de ser apenas um alimento e passa a contar uma história", afirma o queijeiro e pesquisador do Laboratório de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI) em Queijos Finos do Biopark, Kennidy de Bortoli.

Os resultados práticos dessa filosofia inovadora são impressionantes. Três queijos do Biopark se destacaram na competição: o Passionata - que já havia sido eleito um dos nove melhores queijos do mundo no World Cheese Awards 2024, em Portugal - foi escolhido como 3º melhor queijo do Mundial do Brasil na categoria Campeão dos Campeões; o Abaporu conquistou o Super Ouro; o Deleite levou a Prata; e o Granatoo ficou com o Bronze.

O projeto do Biopark já acumula 76 medalhas em apenas sete anos de trajetória, mas a promessa é de ganhar ainda mais relevância nos próximos anos. Com um investimento de R$ 3,8 milhões em parceria com o Governo do Estado, o projeto, que atualmente tem como escopo de atuação o Oeste, vai expandir para as regiões Sudoeste, Norte Pioneiro, Centro-Oriental e Metropolitana de Curitiba. O objetivo é consolidar o Paraná, segundo maior produtor de leite do país, como um dos principais polos de queijos finos da América Latina.

O modelo desenvolvido no Biopark é particularmente interessante porque utiliza rigor metodológico para capacitar famílias rurais a fabricarem produtos de alto valor agregado - queijos que podem atingir até três vezes o preço de venda de um queijo comum. Trata-se de uma estratégia que combina inovação tecnológica com desenvolvimento regional sustentável.

Mas os talentos do Biopark não estavam sozinhos no pódio. O Paraná teve outros campeões de diversas regiões: o queijo Bacchus Josef Ferdinand Lotscher, do Ateliê Lotschental, de Palmeira, ficou com o 2° lugar na categoria Campeão dos Campeões. Outros três ganharam o Super Ouro: queijo Witmarsum tipo Gouda da Cooperativa Agroindustrial Witmarsum e os queijos Frescal Deleite e Vale do Heimtal da Queijaria Deleite, de Londrina.

O estado ainda recebeu 14 Ouros com representantes de Carambeí, Rio Branco do Ivaí, Verê, Marechal Cândido Rondon, Palmeira, Londrina e Guarapuava; nove Pratas com produtores de Dois Vizinhos, Curitiba, Paranavaí, Palotina, Toledo, Palmeira e Diamante do Oeste; e 15 Bronzes com talentos de Londrina, Palotina, Carambeí, Nova Esperança, Cascavel, Nova Laranjeiras, Maringá, Palmeira e Diamante do Oeste.

Os números impressionam, mas o verdadeiro significado vai além das medalhas. O que está em jogo é a transformação de uma cadeia produtiva tradicional em um setor de alta tecnologia e valor agregado. Enquanto o governo estadual anuncia resultados do programa Coopera Paraná e o Porto de Paranaguá registra crescimento de 15% nas exportações de frango no primeiro trimestre, os queijeiros paranaenses mostram que a inovação também pode vir do campo, das mãos de profissionais que unem tradição rural com pesquisa científica de ponta.

Para os consumidores brasileiros, a boa notícia é que esses queijos premiados estão cada vez mais acessíveis. E para o Paraná, fica a certeza de que está no caminho certo para se tornar não apenas um grande produtor de leite, mas um verdadeiro celeiro de queijos finos que competem em igualdade com os melhores do mundo.