(Isto é uma crônica satírica, pura licença poética!)
Este crime bárbaro foi o tema de uma música que vendeu um milhão e meio de cópias do compacto em vinil, uma façanha para a época. Uma mulher corajosa, Clemilda, procurou a delegacia para denunciar a violência sofrida por sua irmã, uma atrocidade tão grande, que, ao relatar os fatos, ela nem conseguiu terminar a frase, tomada pela emoção e o refrão estava criado:
"Seu delegado, prenda o Tadeu! Ele pegou minha irmã e..."
Diante de tanta insistência, decidi usar este espaço para reparar o que considero uma injustiça histórica e biográfica. Precisamos falar sobre 1985. Enquanto o Brasil ensaiava seus primeiros passos rumo à redemocratização, uma alagoana de voz firme e riso fácil já empunhava a bandeira da justiça doméstica. Antes de qualquer protocolo oficial, Clemilda já era uma ativista visionária.
No seu grito de "Prenda o Tadeu", ela não estava apenas cantando um forró de duplo sentido; ela estava estabelecendo um marco na segurança pública domiciliar. Diz a história que a Lei Maria da Penha (2006) é a grande salvaguarda das mulheres agredidas — e com razão. Mas, sejamos honestos: vinte anos antes, Clemilda já dava a diretriz clara. A diferença é que ela era prática.
Ela não pedia uma medida protetiva; ela exigia a custódia imediata do "animal". O tal Tadeu, para quem não se lembra, era uma criatura de comportamento errático e perigoso, um elemento de alta periculosidade. Clemilda, percebendo que o diálogo havia se esgotado, foi cirúrgica: "Prenda o Tadeu!".
A justiça oficial deu fama à agredida, mas Clemilda preferiu o linchamento fonográfico do agressor. Com ela, a vítima permanece no anonimato da denúncia, enquanto o nome do 'animal' virou coro de estádio e o Brasil inteiro protestou contra o agressor, dançando forró até desmaiar. Já o marido da Maria da Penha, caiu no esquecimento e a vítima é que ficou famosa. Um absurdo!
Dizem que o Tadeu hoje vive no ostracismo, longe dos holofotes. Mas a injustiça reside no fato de que a fama da proteção ficou com a Maria da Penha, enquanto a pioneira da "ordem de prisão preventiva musical" foi rotulada apenas como cantora de duplo sentido e seu altruísmo foi tão grande, que ela buscou justiça para a irmã indefesa e não advogou em causa própria.
Fica aqui o meu registro: se hoje os animais (sejam eles de quatro ou duas patas) sabem que há limites, devemos um agradecimento àquela que, em 85, não teve medo de apontar o dedo e pedir a jaula. Tadeu pode até estar sumido, mas o aviso da Clemilda continua ecoando e o futuro nos reserva medidas mais eficazes no combate à violência doméstica.
Logo, teremos cidades inteiras divididas por muros, como Berlim, homens de um lado e mulheres do outro, uma paz incrível, comunidades livres de brigas, sem a necessidade de existirem maternidades ou escolas, apenas um grande hospício de um lado e um grande estádio de futebol do outro. No futuro distópico que nos aguarda, com o muro separando a civilização (elas) da barbárie (nós), certamente haverá uma estátua de Clemilda na fronteira, tipo o Borba Gato na avenida Santo Amaro.
Maria da Penha deu o nome à lei, mas você deu a voz de prisão, lutou contra a violência usando um acordeão, nem foi uma viola! Obrigado, Clemilda! Chamar Tadeu de animal é uma ofensa aos anjos de quatro patas e a História fará a justiça que você tanto buscou!

