Mais de 100 crianças mortas em Gaza desde suposta trégua, denuncia Unicef

Porta-voz da ONU alerta para violações durante cessar-fogo e restrições humanitárias na região

Publicado em 14/jan/26 | 13:02
Mais de 100 crianças mortas em Gaza desde suposta trégua, denuncia Unicef
Fonte: Agência Brasil / EBC

Os bombardeios israelenses e tiroteios na Faixa de Gaza já mataram mais de 100 crianças desde o início de outubro do ano passado, quando foi assinada a suposta trégua entre Israel e o Hamas. O número representa aproximadamente uma criança morta por dia durante o período de cessar-fogo, conforme informou o porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), James Elder, em vídeo publicado nesta terça-feira (13).

"Desde o cessar-fogo, o Unicef registrou relatos de pelo menos 60 meninos e 40 meninas mortos na Faixa de Gaza. O número de 100 reflete apenas os incidentes em que havia detalhes suficientes para serem registrados, portanto, o número real de crianças palestinas mortas provavelmente é maior. Centenas de crianças ficaram feridas", acrescentou Elder.

O cessar-fogo na região foi assinado entre o governo de Tel Aviv e o Hamas no dia 9 de outubro, com a intermediação dos Estados Unidos (EUA). No entanto, as violações continuam sendo registradas, com o Unicef denunciando que a região segue sob severas restrições de acesso a suprimentos médicos, gás de cozinha, combustível e peças para conserto de sistemas de água e esgoto.

Em um relato emocionante, Elder aparece ao lado do menino Abid Al Rahman, de 9 anos, atingido por estilhaços de bomba em Khan Younis, no sul do território palestino. "Eu estava colhendo lenha e plásticos quando um míssil caiu perto de mim e um estilhaço grosso voou direto para o meu olho. Agora não consigo mais enxergar com meu olho", disse Abid, que ainda tem o fragmento de metal alojado no rosto.

Por outro lado, a organização da ONU reconhece que foram registrados progressos para a população durante o cessar-fogo, com expansão dos serviços de saúde, incluindo imunização, e reparos em encanamentos de água e estações e redes de esgoto. "Tudo graças à engenhosidade palestina, e não à entrada de peças de reposição permitidas", destacou o porta-voz. "E na área da nutrição, adicionamos mais de 70 centros de distribuição de alimentos em Gaza. A fome diminuiu", avaliou.

Enquanto isso, as Forças Armadas de Israel afirmam que grupos palestinos estariam violando o cessar-fogo, o que levaria a respostas dos militares. Já o Hamas acusa Israel de seguir com a política de genocídio do povo palestino, principalmente por meio do bloqueio de entrada de ajuda humanitária.

A situação se agrava com as medidas restritivas impostas por Israel. No final de dezembro, o parlamento de Israel aprovou uma lei para proibir a atuação de 37 organizações de ajuda humanitária na Faixa de Gaza, incluindo a Médicos Sem Fronteiras (MSF). O motivo seria o fato de essas organizações se negarem a passar dados de funcionários palestinos ao governo de Benjamin Netanyahu.

A organização Médicos Sem Fronteiras afirma que isso viola a privacidade dos funcionários e os coloca em risco. "O MSF tem preocupações legítimas em relação à exigência, para o registro, de que sejam compartilhadas informações pessoais de nossa equipe palestina com as autoridades israelenses, agravadas pelo fato de 15 colegas de MSF terem sido mortos pelas forças israelenses", disse a organização, em comunicado.

Israel ainda determinou, no mês passado, o corte de água, eletricidade, energia e comunicações das instalações dessas organizações, que incluem ainda a Agência da ONU para Refugiados Palestinos (UNRWA). A medida levou o secretário-geral da ONU, António Guterres, a alertar o governo de Netanyahu de que a ONU poderá levar Israel à Corte Internacional de Justiça (CIJ) devido a essas ações.

A UNRWA já havia sido proibida de atuar nos territórios ocupados por Israel em outubro de 2024. O governo israelense alega que a agência empregaria militantes do Hamas, mas não forneceu provas a uma investigação independente criada para apurar as acusações.

O comissário-geral da UNRWA, Philippe Lazzarini, condenou as novas medidas israelenses, afirmando que elas "fazem parte de um padrão preocupante de desrespeito ao direito internacional humanitário e de crescentes entraves às operações de ajuda". Em resposta, o embaixador de Israel na ONU, Danny Danon, acusou a ONU de tentar "intimidar" Israel com ameaças de levar o país para os tribunais internacionais.

"Em vez de abordar a questão grave do envolvimento de funcionários da UNRWA em terrorismo, [a ONU] está tentando encobrir crimes cometidos pela UNRWA, que atua como subsidiária do Hamas", afirmou Danon. Enquanto isso, as crianças de Gaza continuam pagando o preço mais alto, com suas vidas e futuros em risco diante de um conflito que parece longe de ter um fim.


Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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