Clamei a algum dos milhares de deuses durante a vida toda, estive em templos, cumpri rituais, obedeci a dogmas.

Fiz a minha parte, obedeci aos mandamentos de um pai que me ameaçou com a morte se eu não obedecesse

Até que um dia eu olhei para a cruz e vi ali um filho abandonado por seu pai, entendi que nem ele era prioridade, quanto mais eu.

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Dei meu último centavo como pedágio nessa estrada que jamais termina, sempre com uma placa avisando que a salvação está lá no final.

Salvação de quê? Das ameaças de alguém que me criou e não compreendeu minha inocência de criança?

Que me sentenciou como bandido e me mandou perdoar e perdoar. Onde, afinal, está o sentido desta vida?

Nas estrelas? Aquele amontoado de pontinhos brilhantes que só servem para me mostrar o quanto sou minúsculo?

 

Um dia, eu estava em desespero, chorando baixinho e ninguém me ouvia, deitado numa cama, doente e sozinho.

Um gato veio andando pelo muro, entrou pela janela e deitou-se sobre o meu peito, ronronando. Me fez relaxar, e ambos adormecemos.

Acordei mais animado, me levantei, dei a ele comida e água, fiz carinho nele e também me alimentei.

Fiz a barba, tomei banho, lavei bastante roupa e passei desinfetante no chão. Minha casa ficou parecendo um paraíso de verdade.

Me lembrei de que uma mamãe gata defende seus filhos com unhas e dentes, alimenta-os e os protege. Tem atitude de mãe.

Ela jamais ficaria inerte diante da agressão a uma de suas crias. Não assistiria passivamente à crucificação de um filho, só por vaidade.

Aprendi a perdoar e a estar presente seguindo o exemplo dos gatos. Nada de pregação ou promessas: simplesmente atitude.

Aqui e agora, não num futuro ou numa galáxia distante, onde eu passaria a eternidade cantando louvores a quem me torturou.

A quem me colocou num campo de concentração e surrou minha carne para me preparar para uma suposta vida espiritual.

Hoje, pago um dízimo em forma de ração e recebo em troca milhares de miados e ronronados.

Sempre tenho um olhar atento e zeloso, um companheiro real que me segue pela casa e me recebe no portão.

Esta homenagem é ao Senhor Gato, um resumo de todos os seres de luz que eu já adotei e que me mostraram que, sim, Deus existe!

Em especial ao César, um gato do mato que aceitou meu colo e simplesmente recusou-se a morrer quando descobriu o quanto eu valia.

Em nome dele, agradeço a todos. Quem não amar um gato não conhecerá a Deus, pois Ele é amor.

E não está congelado no blá-blá-blá de um livro frio. Está aquecendo o coração dos humanos que ele escolheu adotar.

A salvação chegou! E está brincando com uma bolinha de papel, mostrando o desapego e a inocência que os humanos ignoram.