Um levantamento recente realizado pela Sanepar, Companhia de Saneamento do Paraná, trouxe à tona um retrato detalhado da segurança hídrica nos imóveis do estado. Os dados, coletados em novembro de 2025 pelo Instituto Radar Pesquisas, mostram que, apesar do acesso à caixa d'água ser uma realidade consolidada na maioria dos municípios atendidos pela companhia, uma parcela significativa da população ainda vive sem essa proteção básica: 23% das residências e 30% dos estabelecimentos comerciais não possuem caixa-d'água ou cisterna.

O estudo ouviu 2.900 pessoas, sendo 2.400 clientes residenciais e 500 de imóveis comerciais, em cidades polo de cada região do Paraná. Os números revelam disparidades regionais marcantes. Na região Norte do estado, 87,7% dos entrevistados afirmaram ter caixa-d'água em suas residências. Já a região Sudoeste apresenta os índices mais baixos: apenas 64,3% dos imóveis residenciais e 54,7% dos comércios contam com reservação. Entre os municípios pesquisados, Telêmaco Borba (56,6%), nos Campos Gerais, e Foz do Iguaçu (59,5%), no Oeste, registraram os menores percentuais de imóveis residenciais com a instalação desses equipamentos.

O reservatório como garantia de abastecimento

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De acordo com a norma técnica brasileira, todas as residências devem ter uma caixa-d'água, que funciona como reserva de emergência. O diretor-presidente da Sanepar, Wilson Bley, reforça que o reservatório doméstico é uma extensão do sistema de distribuição. "Este cenário revela que quem tem caixa-d'água não é afetado por interferências no abastecimento. Da mesma forma que a Companhia investe nos sistemas de reservação para a estabilidade do sistema, a caixa-d'água dos imóveis residenciais e comerciais permite o acesso à água, mesmo em casos de interrupção temporária", afirma.

Os números comprovam essa afirmação: 78% dos clientes que possuem reservatório declararam não ter sentido falta de água no período de um ano. Na região Norte, onde o índice de reservação é alto, a satisfação com a continuidade do abastecimento atinge 85,5%.

Capacidade e necessidade técnica

O gerente de engenharia da Sanepar, Eduardo Arrosi, detalha a importância do equipamento. "O perfil das famílias que existem no Paraná é composto, geralmente, por três a quatro pessoas. Para esse perfil, uma caixa-d'água com 500 litros de volume consegue atender o abastecimento de uma residência por um dia, ou seja, por 24 horas. Isso é importante porque eventualmente vão ocorrer manutenções nas redes de distribuição de água e o serviço terá que ser interrompido para que se possa efetuar consertos ou outras intervenções", explica.

Arrosi também destaca a vulnerabilidade do sistema de abastecimento a falhas no fornecimento de energia elétrica. "Para distribuir água nós dependemos da energia elétrica. Então, quando há falta de eletricidade, pode ocorrer a paralisação no sistema de abastecimento de água. Nesses casos, tendo a caixa-d'água, o consumidor não vai sentir a falta, porque vai ter essa reserva em sua residência".

Exigências para edificações maiores

O gerente chama atenção para a necessidade de instalação de cisternas em prédios e edificações com mais de dois pavimentos. "As normas brasileiras recomendam que a Sanepar, e qualquer outra concessionária de distribuição de água, forneça uma pressão de 10 metros de coluna d'água (m.c.a.) na entrada do hidrômetro. Ou seja, a água teria força suficiente para subir 10 metros. Por isso, nos casos acima de dois pavimentos — nos quais os edifícios chegam muito próximo ou ultrapassam essas alturas — é necessária a cisterna com sistema de bombeamento. Com isso, o cliente não vai sentir falta de água", diz.

Para construções com mais de 600 metros quadrados, é necessária a aprovação do projeto hidrossanitário na Sanepar. Em casos de prédios com dois ou mais pavimentos, a construção de uma cisterna é exigida.

Reconhecimento no mercado imobiliário

O empresário Raimundo Wagner Moreira, que investe na construção de imóveis para venda e locação em Foz do Iguaçu, reconhece a importância da reservação doméstica. "É um item de extrema importância em uma obra. Caso a Sanepar precise fazer alguma manutenção na rede, a gente não fica desabastecido. Sempre coloquei o equipamento, inclusive estou fazendo uma obra nova e já está no projeto também fazer a caixa-d'água", afirma.

Programa social leva água a famílias vulneráveis

Para enfrentar a falta de reservatórios nas residências de famílias em situação de vulnerabilidade, o Governo do Paraná e a Sanepar mantêm o programa Caixa d'Água Boa. A iniciativa disponibiliza uma caixa d'água e um kit de instalação, além de um subsídio financeiro de R$ 1 mil para viabilizar a instalação. As famílias beneficiadas também recebem capacitação para instalação adequada do equipamento.

Desde sua criação, em 2017, o programa já recebeu R$ 46 milhões e beneficiou 15 mil famílias. Para ser elegível, a família deve atender a vários critérios cumulativos: residir em município com contrato de concessão ou programa vigente com a Sanepar; morar em domicílio abastecido pela companhia e que não possua caixa d'água; estar inscrita no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal; encontrar-se em situação de vulnerabilidade social conforme o Índice de Vulnerabilidade das Famílias (IVFPR); e possuir renda familiar de até meio salário mínimo nacional por pessoa.

O estudo da Sanepar evidencia que, enquanto a caixa d'água se consolida como elemento fundamental para a segurança hídrica no Paraná, ainda há um caminho a percorrer para universalizar esse direito básico, especialmente nas regiões com menores índices de reservação e entre a população mais vulnerável.