Vozes Negras em Foco: educação, arte e reparação
Evento em Apucarana celebra protagonismo de mulheres negras e discute letramento, saúde mental e justiça racial nas universidades
Foto: Arquivo
Com música, memória e resistência, o evento realizado nesta sexta-feira, 1º de agosto, no Cine Teatro Fênix, em Apucarana (PR), celebrou a potência das mulheres negras em diferentes frentes de atuação: da arte à educação, da saúde mental à luta por justiça histórica. A programação teve início às 19h e reuniu nomes importantes do cenário acadêmico e cultural em um espaço de troca, escuta e afirmação identitária.
A abertura ficou por conta do grupoAs Cores do Samba, formado por Rodrigão, Leandrinho e Zap, que trouxe a força do samba de raiz para aquecer o público e dar o tom político e afetivo da noite. Mais do que entretenimento, a música foi um instrumento de conexão com as raízes afro-brasileiras e de valorização das expressões culturais negras.
Na sequência, a professora Adevanir conduziu uma reflexão essencial sobre o papel das universidades na reparação histórica às mulheres negras. Seu discurso destacou o quanto o acesso à educação superior ainda é desigual no Brasil, apesar dos avanços trazidos por políticas de cotas e ações afirmativas.
Ela ressaltou que o racismo estrutural ainda impõe barreiras silenciosas e que as instituições de ensino superior precisam ir além da inclusão formal: é necessário garantir permanência, voz e protagonismo às mulheres negras dentro das universidades públicas e privadas.
A psicóloga e professora Mara Prates trouxe uma abordagem sensível e contundente sobre os impactos do racismo na saúde mental das mulheres negras. Em sua fala, Prates pontuou que o sofrimento psíquico vivenciado por essas mulheres está diretamente relacionado a experiências de exclusão, silenciamento e múltiplas jornadas de trabalho — muitas vezes não reconhecidas.
Ela também destacou a importância de políticas públicas específicas que levem em consideração as particularidades das mulheres negras no SUS e no sistema de atenção psicossocial, onde ainda predominam modelos eurocentrados de cuidado.
A professora Gilda fez uma homenagem à educadora Dona Vicência Fonseca, destacando o papel histórico das mulheres negras na formação de comunidades educativas — formais ou informais. Sua apresentação, intitulada “Educação e mulher contemporânea: o legado de Dona Vicência Fonseca”, abordou como essas figuras resistiram ao apagamento histórico e educaram gerações mesmo em contextos adversos.
A fala emocionou o público ao conectar passado e presente, demonstrando como a herança de mulheres negras educadoras segue viva nas práticas pedagógicas atuais, especialmente entre docentes que atuam com consciência racial crítica.
Encerrando o evento, a professora Jéssica apresentou uma análise potente sobre a obraQuarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Ela relacionou o processo de letramento da autora ao contexto histórico da escravidão e suas consequências sobre o acesso à escrita e à leitura pela população negra.
Jéssica defendeu que a escrita de Carolina é um exemplo de superação coletiva: “Carolina não apenas escreveu sua realidade, mas também rompeu com o silêncio imposto às mulheres negras da periferia”.
A palestra resgatou a importância do letramento como ferramenta de emancipação social, especialmente para mulheres negras que historicamente foram excluídas do direito à palavra escrita. A professora também propôs a incorporação da obra de Carolina no currículo escolar, como forma de reconhecer a produção intelectual negra brasileira.
Mais do que um conjunto de palestras, o evento no Cine Teatro Fênix se consolidou como um espaço de fortalecimento das vozes negras femininas, com pautas que dialogam diretamente com os desafios e as potências do Brasil contemporâneo. As discussões, conduzidas por mulheres negras atuantes na educação, na saúde e na cultura, reforçaram que a luta por equidade racial passa, necessariamente, pelo reconhecimento do valor histórico e atual dessas mulheres.
A diversidade dos temas abordados — do samba à sala de aula, da ancestralidade ao cuidado com o corpo e a mente — evidenciou o caráter interseccional da luta antirracista. Cada fala foi, ao seu modo, um ato de resistência e um convite à transformação coletiva.
Organização e apoio
A realização do evento foi possível graças ao empenho doColetivo Diversidade Cultural Plural, que esteve à frente da organização. O diretor geralCarlos Alberto Figueiredoe sua equipe foram responsáveis por deixar tudo impecavelmente preparado para receber o público e os convidados com acolhimento e profissionalismo.
O evento contou com oapoio da Prefeitura de Apucarana, por meio daAutarquia Municipal de Educaçãoe daSecretaria Municipal de Cultura e Turismo, além do suporte de instituições parceiras como aANEPS (Articulação Nacional de Psicólogas/os Negras/os e Pesquisadoras/es), aUNESPAR, aPastoral Afro Apucaranae aWeb Rádio Mex FM, que amplificaram a divulgação e contribuíram para o sucesso da iniciativa.
Confira os principais temas abordados:
O evento de 1º de agosto em Apucarana foi um lembrete de que, para construir um país mais justo, é preciso ouvir e valorizar as experiências, saberes e trajetórias das mulheres negras. Que essas vozes não ecoem apenas em datas comemorativas, mas se tornem parte da escuta cotidiana da sociedade brasileira.
Fonte:
Arquivo Histórico

