Um levantamento inédito da Agência de Assuntos Metropolitanos do Paraná (Amep) trouxe à tona um dado que surpreende: a ocupação dos perímetros urbanos dos municípios da Região Metropolitana de Curitiba (RMC) está em apenas 40%. Isso significa que 60% das áreas já delimitadas como urbanas permanecem vazias ou subutilizadas, mesmo com infraestrutura disponível ou potencial.
A RMC, que é a oitava região metropolitana mais populosa do Brasil, com 3,5 milhões de habitantes, enfrenta o paradoxo de ter espaço de sobra dentro de seus limites urbanos, enquanto muitos municípios buscam ampliar esses perímetros para novos empreendimentos. Os dados são parte do Plano de Desenvolvimento Urbano Integrado (PDUI), que está em fase final de elaboração.
Os números dos vazios urbanos
O estudo mapeou a situação em cada cidade da região. Adrianópolis lidera o ranking de desocupação, com impressionantes 91% de suas áreas urbanas vazias. Na sequência, aparecem Tijucas do Sul (90%), Doutor Ulysses e Quatro Barras (87% cada), Tunas do Paraná e Rio Negro (86% cada) e Campo Magro (85%).
No extremo oposto, Curitiba apresenta o menor índice: 29% de desocupação, refletindo seu alto grau de urbanização. Araucária vem em segundo, com 50%, e Pinhais em terceiro, com 54%.
O custo da ineficiência
Para o diretor-presidente da Amep, Gilson Santos, os números revelam uma oportunidade perdida. "Os perímetros urbanos municipais normalmente possuem melhor atendimento de serviços públicos. Ter áreas desocupadas nestas regiões acaba tornando o município menos eficiente, pois existe um alto custo para manter os equipamentos e serviços nestes locais", explica.
Santos alerta que a tendência de ampliar os limites urbanos, comum em muitos municípios, pode agravar o problema. "A ampliação do perímetro urbano pelo município traz um aumento de custos com a necessidade de ampliação de serviços como coleta de lixo e atendimento do transporte coletivo, além de novos equipamentos urbanos como escolas, posto de saúde, entre outros. Ao mesmo tempo, desloca o cidadão para áreas mais distantes, aumentando seu tempo e custo de deslocamento diário. Tudo isso traz desafios sociais, ambientais e econômicos", afirma.
Potencial habitacional ignorado
O estudo da Amep aponta que o verdadeiro desafio das cidades da RMC não é a falta de espaço, mas a eficiência no uso das áreas já urbanizadas. De acordo com o PDUI, existe margem suficiente para reduzir o déficit habitacional do Paraná sem precisar expandir os perímetros urbanos, mantendo as pessoas mais próximas dos centros comerciais e de serviços.
O que mantém esse déficit, segundo a análise, é justamente o custo elevado das áreas nos vazios urbanos, que se tornam inacessíveis para famílias de baixa renda. O Estatuto da Cidade (Lei Federal nº 10.257/2001) oferece instrumentos para enfrentar essa questão, como o IPTU Progressivo, incentivos fiscais e até desapropriações, promovendo o desenvolvimento com aproveitamento da infraestrutura existente.
Capacidade ociosa e projeções futuras
Um dos achados mais reveladores do estudo, ainda em andamento, veio do cruzamento dos dados de vazios urbanos com projeções populacionais. A conclusão é que os perímetros urbanos atuais são, em média, 90% superiores à demanda estimada para os próximos anos.
Isso significa que, mesmo que todo o crescimento previsto para os municípios da RMC se concretize, ainda sobrariam áreas urbanas disponíveis para ocupação. E esses cálculos nem consideram possibilidades de adensamento, como verticalização, ou a utilização de domicílios vagos, que poderiam ampliar ainda mais a capacidade de absorção.
O papel do planejamento metropolitano
Os estudos conduzidos pela Amep têm como objetivo fornecer subsídios para que os municípios da RMC tomem decisões mais informadas sobre planejamento urbano e investimentos em infraestrutura. "Esse é um papel importante do órgão metropolitano, sem interferir na autonomia municipal, mas contribuindo para a qualidade de vida de suas populações", destaca Gilson Santos.
O levantamento serve como um alerta e um convite à reflexão: antes de expandir horizontes, talvez seja hora de olhar para dentro. Os vazios urbanos da Região Metropolitana de Curitiba representam não apenas um desafio de gestão, mas uma oportunidade histórica para um crescimento mais inteligente, sustentável e inclusivo.

